Lendo nas entrelinhas, ficou óbvio para Deise que ele havia encarado toda a situação como uma mera obrigação, uma tarefa de trabalho.
Ainda assim, o fato de a família dele ter exigido especificamente que ele fosse o anfitrião do jantar deixava claro que havia uma segunda intenção de reatar o compromisso entre os dois.
Além disso, naquele dia, mesmo observando de longe, ela reparara na atitude de Nilda:
A garota estava muito interessada nele.
Apesar da pose de moça recatada e de família tradicional, os olhos dela fugiam constantemente na direção de William. Fosse intencional ou não, ela não parava de olhar para o rosto dele, transbordando uma expectativa silenciosa por qualquer retribuição de afeto.
O que era perfeitamente compreensível. Com aquela beleza fora do comum, a origem abastada e um excelente emprego, era natural que as mulheres caíssem de amores por ele.
Sem perceber, Deise relaxou os ombros, sentindo um peso sair de suas costas.
— Mais aliviada agora?
— Uhum...
Mal a resposta saiu, ela percebeu a armadilha na qual acabara de cair.
— Aliviada com o quê?! Eu não estava preocupada com nada, para começo de conversa...
Ela bateu o pé, negando até o fim.
E, se fosse para apontar um culpado, a culpa era toda dele por ter se declarado antes.
Se ele nunca tivesse tocado no assunto, ela jamais estaria perdendo tempo prestando atenção nas mulheres ao redor dele.
Depois de assar o restante da carne e guardar tudo para a viagem, os dois saíram juntos da churrascaria.
— O seu motorista ainda não chegou?
William indagou.
Na verdade, ela sequer havia pedido o carro!
Só inventara aquela desculpa porque não queria de jeito nenhum que Leandro a levasse em casa.
Por um lado, ela queria manter segredo sobre sua atual residência no Dourado Celeste, escondendo o fato de que já não vivia mais no Imperial Verde, onde Palmiro morava.
Por outro, desejava evitar qualquer tipo de intimidade excessiva com Leandro.
Afinal de contas, ele era um antigo colega de universidade de Victória.
Sem falar que ela, oficialmente, ainda era uma mulher casada.
E, mesmo que Leandro não tivesse se declarado de forma tão incisiva como William...
...o interesse constante dele em descobrir mais sobre a vida dela era inegável.
Deise inspirou fundo.
O calor do alto verão era implacável, e a brisa que soprava em seu rosto deixava um calor reconfortante em seu peito.
E assim foi feito. William assumiu a direção do carro dela, levando-a em segurança de volta ao Dourado Celeste.
Na manhã seguinte, para o choque de William, Deise acordou antes dele e até preparou o café da manhã.
— Você sempre me fez torradas e leite, então hoje é a minha vez... mas a geladeira estava meio vazia, então só deu para fazer um misto-quente.
Enquanto falava, ela colocou uma latinha de guaraná ao lado do prato dele e outra no seu.
— Está mais do que perfeito... e é algo de que eu gosto muito.
Ele se sentou de frente para ela e começou a comer.
Observando-o comer o misto-quente e beber o guaraná, Deise teve a nítida sensação de ver um olhar de pura nostalgia no rosto dele.
— Ah, quando a gente terminar, vamos para o trabalho juntos. Eu te dou uma carona até a empresa.
O comentário despretensioso fez com que ele parasse de mastigar abruptamente.
Na entrada principal do Dourado Celeste, um imponente e luxuoso Rolls-Royce preto acabara de cruzar os portões, estacionando suavemente em frente à torre central.

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