Nina deu uma risadinha. Por que de repente estava pensando nele de novo?
Tirou o celular da bolsa e mandou uma foto do documento para Júlia.
Júlia: "Então é assim que se parece uma certidão de divórcio... é igualzinha à de casamento! Para mim, certidão de divórcio devia ser branca, para anunciar a todo mundo que um ex decente é igual a um ex morto."
Nina concordou plenamente, mas, ao olhar mais uma vez para o documento em suas mãos, ainda assim não pôde evitar ficar perdida em pensamentos.
Perguntando a si mesma, será que ela conseguiria não sentir absolutamente nada?
Não.
Afinal de contas, tinha sido um casamento de três anos em que investira toda sua dedicação, e, durante esse tempo, ela esperava poder ter uma vida a dois, para sempre, com Gustavo Mendes.
Essa sensação era como se você tivesse estudado com todas as suas forças para uma prova e, bem no momento em que entrasse na sala, lhe dissessem que a prova havia acabado.
Você nem mesmo havia feito as questões e, de repente, lhe informavam que tudo tinha acabado e que você fora reprovada e expulsa da sala.
Incerteza, suspiros, era como um vento batendo de todas as direções, envolvendo Nina por inteiro.
Não sabia quanto tempo havia passado quando Nina, por fim, voltou a si. Guardou o celular e jogou a certidão de volta à bolsa.
De repente, sua mão ficou vazia.
Ela ergueu a cabeça e notou que o homem, imponente e com ares casuais, estava de pé às suas costas, sem que ela soubesse desde quando.
Olhou para além das costas dele e viu que a porta do apartamento 802 estava entreaberta. Francisco também tinha retornado.
Antes mesmo dela.
A irritação surgiu no rosto de Nina, que se esticou nas pontas dos pés para tentar pegar a certidão.
— Me devolva!
Francisco era uma cabeça mais alto que ela. Levantou um pouco a mão, deixando-a fora do alcance, e ela não conseguiu tocar no documento mesmo dando pulinhos.
— Francisco Fontes!
Nina esbravejou, irritada:
— Me devolva minha certidão de divórcio!
— Ah, então esta é a certidão de divórcio? — Ele arrastou a voz, soando cínico.
Uma pergunta cujas respostas ele com certeza já sabia!
Nina sabia que ele havia feito aquilo de propósito, para rir da cara dela.
Francisco encostou na parede. Numa mão, segurava um cigarro; na outra, o documento. Os olhos estreitos e finos se estreitaram mais ainda.
— Por que mentiu para mim?
Nina criou coragem para olhar nos olhos dele.
— Porque se trata da minha vida pessoal.
A frase soou carente de confiança, pois no fim, sua consciência estava pesada.
Francisco olhou-a de soslaio.

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