Muito tempo depois, uma chuva fina começou a cair, e as gotas tocavam o rosto de Eduarda.
Sem hesitar, Cícero tirou o seu próprio paletó e o usou como escudo para protegê-la da chuva, dizendo:
— Volte comigo. Eu deixo você fazer o que quiser, mas não fique mais aqui. O Franklin não vai voltar.
Um sorriso mudo e fraco se formou nos cantos dos lábios de Eduarda.
Ela murmurou em voz baixa:
— Cícero, me leve para beber. Eu quero beber.
Cícero se apoiou com um dos braços ao lado dela e perguntou:
— Você está falando sério?
— Claro — Eduarda confirmou.
— Tudo bem — Cícero concordou de imediato. Ele soltou o paletó sobre o rosto dela e, no instante seguinte, Eduarda sentiu-se ser erguida nos braços dele.
Cícero a colocou no banco do passageiro e tirou o casaco que a protegia da chuva, antes de dar a volta e assumir o volante.
Nenhum dos dois disse nada. Cícero ligou o motor e, com uma manobra rápida, deixou para trás aquela praia chuvosa e carregada de melancolia.
Clube Privado.
Quando Cícero e Eduarda entraram no local, o gerente do clube imediatamente reconheceu Cícero e correu para recepcioná-los com entusiasmo.
— Prepare uma sala VIP para mim e minha esposa. Não quero ser interrompido por ninguém.
Ao ouvir que a mulher ao lado era a Sra. Machado, o gerente apressou-se ainda mais. Ele rapidamente reservou a sala mais luxuosa do clube e conduziu o casal até lá com todas as honras.
— O que o Sr. Machado e a patroa gostariam de beber? Temos um novo barman. Se a Sra. Machado preferir algo leve, podemos preparar drinques com baixo teor alcoólico.
Cícero olhou para Eduarda antes de responder:
— Não precisa. Traga a bebida pura, como sempre. Nada de coquetéis nem misturas.
Eduarda deu um sorriso discreto. Em silêncio, caminhou até a enorme janela panorâmica e ficou observando o tráfego intenso e a paisagem noturna brilhante da cidade.
Sentado à sua frente, estava o homem dominador. Um homem que, em vez de gentileza, exalava controle, mas que, paradoxalmente, estava disposto a acompanhá-la em seus comportamentos autodestrutivos.
Num momento de divagação, Eduarda sentiu que a relação entre os dois era como um labirinto, cheio de curvas e retornos sem sentido.
Mas, não importava quantos caminhos tomassem, acabavam sempre esbarrando um no outro.
Se aquilo era destino, era um destino amargo. Quando aquele vínculo doloroso entre duas pessoas que não se amavam finalmente chegaria ao fim?
Observando Cícero virar um copo após o outro para acompanhá-la, ela ironizou:
— Acho que eu deveria agradecer ao Sr. Machado por me dar a honra da sua companhia.
Cícero parou e fixou o olhar nela, com os olhos ocultos pela sombra projetada pela iluminação do ambiente.
— Fazer companhia a você é algo que eu faço de livre e espontânea vontade.
Eduarda deu um riso de escárnio suave e não teve mais vontade de conversar. Seu humor estava longe de ser bom; na verdade, estava péssimo. Se não fosse por aquela camada resistente de vidro na janela, naquele estado de desespero e tomada por um impulso momentâneo, ela até duvidava se não acabaria se atirando lá de cima.

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