Ironicamente, quem conseguiu aquele amor com mais facilidade foi justamente quem menos soube valorizá-lo, esmagando com as próprias mãos algo puro e precioso até não sobrar nada além de um coração despedaçado.
E agora, depois de destruir tudo e só então perceber que coração não é algo que se pisa, lá estava Cícero, querendo voltar e implorando por migalhas.
Mas com que direito?
Franklin sentia o estômago revirar de raiva. Sendo a única pessoa que conhecia toda aquela teia de dor, sem poder contar uma palavra sequer a Eduarda ou a qualquer outra pessoa, o rancor que carregava por dentro explodiu de vez quando ficou frente a frente com o principal culpado.
Com os olhos avermelhados e o coração sendo triturado pelo remorso, Cícero sustentou o olhar dele e respondeu com firmeza:
— Eu não vou soltá-la. Quando se trata dela, é impossível que eu desista. Eu cometi um erro monstruoso antes, mas não vou cometer o mesmo erro uma segunda vez.
Franklin percebeu que continuar discutindo era pura perda de tempo. Cícero sempre foi assim: quando se fixava numa obsessão, virava uma parede impossível de mover.
— Quando a Eduarda só tinha olhos para você, você estava obcecado em correr atrás da Weleska. Agora que tudo mudou, que a Weleska voltou para o seu lado e que vocês dois ficaram livres, porque a Eduarda já saiu da história, você se recusa a soltá-la. Cícero, como quer que eu acredite que você não vai destruí-la de novo? Você, mais do que qualquer outra pessoa, perdeu o direito de receber o amor da Eduarda.
Cada frase de Franklin era como uma estaca cravada sem piedade nas feridas abertas no peito de Cícero.
Cícero cerrou os punhos, tomado por um impulso primitivo de partir para a agressão, mas usou os últimos resquícios de razão para se conter.
Eduarda ainda estava sob os cuidados de Franklin. Se partisse para a violência, só a afastaria ainda mais. Ele não podia correr o risco de perdê-la de forma definitiva.
— Você não está na minha pele. Não se atreva a julgar o que eu sinto. A forma como vou tratá-la daqui pra frente é problema meu — respondeu Cícero com o olhar gelado. — Eu garanto que não vou deixar que ela se machuque de novo. Nunca mais.
— Não jogue o seu lixo em cima dos outros. Toda essa situação é culpa sua. Depois do acidente, a Eduarda entrou em coma profundo. O próprio médico me disse, naquela época, que as chances de ela acordar eram mínimas. Você faz ideia de quantas vezes eu amaldiçoei a sua existência naqueles dias? Se não fosse a sua crueldade, ela jamais teria sido arrastada até tão perto da morte.
— Mais tarde, depois de um mês inteiro de coma, eu já tinha bloqueado completamente a sua existência repulsiva da minha cabeça. Passei dias e noites tentando de tudo pra trazê-la de volta... tratamentos alternativos, estímulos, qualquer possibilidade que existisse... E talvez Deus tenha ouvido o meu desespero, porque ela finalmente abriu os olhos. Só que a mulher que acordou já não era mais a mesma de antes.
O terror apertou a garganta de Cícero num nó brutal.
— Do que você está falando? Fala de uma vez!
Franklin fez uma pausa dramática e então desferiu o golpe final, bem devagar:
— Ela perdeu a memória. Ou, para ser mais exato: a parte da memória ligada à sua existência... desapareceu completamente.

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