Ele fuzilou Roberto com o olhar e trincou os dentes de pura fúria.
— Você acha que tem o direito de falar do meu pai?
— Se não fosse pelas suas armações sujas, os meus pais jamais teriam morrido naquele acidente!
Cícero não estava mais disposto a suportar aquela farsa.
Já que as máscaras haviam caído, era melhor colocar todas as cartas na mesa.
No passado, Roberto havia chegado ao ponto de expulsar o pequeno Cícero da mansão da família Machado apenas para esmagar a linhagem de seu próprio irmão.
A desculpa oficial era permitir que o garoto tivesse espaço para lamentar a morte dos pais.
Mas a verdadeira intenção era atirá-lo ao esquecimento e garantir que ele nunca mais se erguesse no mundo dos negócios.
Roberto soltou uma risada leve e desdenhosa.
— Você pode comer o que quiser, mas não deve disparar palavras sem pensar, Cícero.
— Que provas você tem de que a morte do meu irmão e da minha cunhada tem algo a ver comigo?
— Você não pode me acusar baseando-se apenas na sua imaginação distorcida e no ódio que sente pelo seu tio Roberto.
— Seria uma grande injustiça atirar o meu nome na lama dessa forma.
Roberto valorizava a sua reputação e o seu poder acima de qualquer coisa no mundo.
Ele jamais permitiria que boatos venenosos como aquele fossem espalhados pela alta sociedade.
Cícero deu um sorriso gélido e repulsivo.
— É justamente porque tantos anos se passaram que você conseguiu destruir todas as evidências.
— É por isso que não consigo encontrar as provas materiais.
— Mas a falta delas não significa que os seus crimes nunca existiram.
Ele deu um passo à frente, com os olhos queimando em fúria.
— Eu conversei com um antigo subordinado seu dentro do grupo.
— Ele me contou exatamente o que você fez no passado.
— Foi você quem exigiu pessoalmente que os meus pais fossem inspecionar aquele canteiro de obras no seu lugar.
— Você sabia perfeitamente que o local estava passando por reformas de alto risco, mas não disse uma única palavra para alertá-los.
— Foi o seu silêncio que custou a vida dos meus pais!
— Você tem a audácia de olhar nos meus olhos e negar que essa tragédia foi obra sua?
Roberto demonstrou uma indiferença quase teatral diante das acusações.
— Cícero, aquele acidente na praia durante a sua infância deve ter afetado a sua sanidade.
— Eu jamais cometi o absurdo que você acabou de descrever.
— Os seus pais não morreram porque foram inspecionar um projeto no meu lugar.
— O meu irmão sofreu um colapso mental grave porque não suportou o peso brutal de assumir a liderança da família Machado.
— A minha cunhada ficou tão devastada com a perda que decidiu tirar a própria vida para segui-lo na morte.
— Como você ousa distorcer a história e inventar uma fantasia ridícula como essa?
Cícero observou a expressão inabalável com a qual o velho narrava aquela mentira asquerosa.
Ele sabia perfeitamente que o seu tio Roberto havia sido consumido pelo poder a ponto de se transformar em um monstro sem escrúpulos.
Aquele homem jamais hesitaria em construir o seu império de glória sobre uma imensa montanha de ossos e sangue inocente.
Cícero o questionou com uma fúria contida.
— Tio Roberto, você teria coragem de repetir essas exatas palavras de joelhos diante do altar dos meus pais?
— Se você foi capaz de destruir a vida do seu próprio irmão de sangue, existe algum limite moral para as suas ambições sujas?
A provocação afiada fez com que a máscara de Roberto rachasse por um breve segundo.
— Ah, as suas palavras insolentes acabam de me lembrar de um detalhe importante.
— O seu avô ordenou que você ficasse no salão ancestral para se arrepender dos seus pecados.
— Você não deveria estar sentado aqui agora.
— Vá até lá e aproveite o momento para pedir desculpas ao meu irmão e à minha cunhada em meu nome.
— Você espalhou o caos por todos os cantos hoje, e adivinhe quem terá que limpar a sua bagunça no fim das contas? O seu tio Roberto.
— Mas tudo bem, eu já encobri as fraquezas do meu irmão no passado e posso muito bem fazer o mesmo por você hoje.
— Afinal, somos todos do mesmo sangue e carregamos o peso do sobrenome Machado juntos!
Assim que terminou o seu discurso cínico, Roberto chamou os seguranças de imediato.
— Acompanhem o Sr. Cícero até o salão ancestral.
— Certifiquem-se de que ele tenha silêncio absoluto para esfriar a cabeça.
— Pai, mãe... já faz muito tempo que eu não venho visitá-los aqui.
Ele despejou as palavras para o alto, em uma confissão silenciosa às almas distantes e invisíveis.
A sua voz soava arrastada e anestesiada, como se estivesse narrando a crônica miserável de um estranho qualquer.
— Durante muito tempo depois da partida trágica de vocês, o seu filho manteve a ilusão de que levava uma vida quase impecável.
— Foi só quando a água bateu na testa que ele percebeu ter cometido o erro mais grotesco e imperdoável da face da Terra.
Ele engoliu seco, encarando os olhos bondosos nas fotografias antigas.
— Ele apunhalou a única mulher que realmente ocupou o seu coração gelado e a atirou para a escuridão absoluta.
— E foi preciso vê-la sumir entre os dedos para que ele finalmente aprendesse, da pior maneira possível, o verdadeiro significado da palavra amor.
— Mas a epifania chegou tarde demais para salvá-la de seu egoísmo sombrio e cruel.
Uma lágrima teimosa lutou para romper a barreira estóica de seu olhar sombrio.
— Ele permitiu que a nora amada de vocês sumisse sem deixar rastros no meio do caos impiedoso.
Ele olhou para o alto com o peito apertado, rogando por uma resposta milagrosa.
— Me digam a verdade...
— Vocês acham que existe alguma ínfima chance de que ela consiga perdoar os horrores que eu cometi contra a sua alma?
— Vocês acham que ela seria capaz de me conceder o benefício de uma nova chance?
Cícero disparou as perguntas amargas para o eco solitário e assustador do vazio colossal.
Nenhum milagre ou fantasma angelical cruzou o véu divino para lhe oferecer uma resposta tranquilizadora no silêncio gélido do abismo escuro da sala mortuária familiar.
O ambiente permanecia imerso em um silêncio tão denso e insuportável que o único som audível era a respiração ofegante que tentava inflar os seus pulmões esmagados pela culpa e pelo desespero enjaulados ali.
Após um período inestimável de tempo tortuoso lutando contra as barreiras mentais, a força invisível da agonia esmagou-o no chão como um trator impiedoso sem freio no asfalto gelado.
Ele abraçou o próprio crânio pesado e contraiu os músculos exaustos sobre a placa mortuária de pedra negra fria.
O som estrangulado de soluços masculinos abafados rompeu o silêncio fúnebre do mausoléu intocável de sua família despedaçada.
O acerto de contas espiritual havia arrombado a porta de sua mente e estraçalhava a sua sanidade em milhares de cacos afiados.
O desespero absoluto inundou a sua alma, instalando-se no fundo do seu peito e amaldiçoando qualquer vestígio de esperança ou alívio por um período indeterminado.
Ele sentia-se um peregrino amaldiçoado vagando isolado no meio de uma escuridão gélida infinita.
Ele estava completamente sozinho, andando em círculos invisíveis, cego, mudo e surdo, totalmente impossibilitado de encontrar um norte para escapar daquele pesadelo sombrio.

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