A aurora surpreendeu Eduarda já de pé, preparando o próprio café da manhã e vestindo uma roupa casual e elegante, com os cabelos presos em um rabo de cavalo prático antes de apanhar as chaves do carro.
Durante a parada em um semáforo, ela ativou o sistema Bluetooth do veículo e acionou o contato de Arthur.
— Já estão a caminho, meu amor?
O menino estava focado em abastecer a sua mochila com um arsenal de doces selecionados da bandeja segurada pelo administrador da casa.
— Tudo pronto por aqui, mamãe, as portas já estão se abrindo!
O garoto gritou animadamente pelo aparelho.
A voz afetuosa acariciou os ouvidos da criança.
— Excelente, protejam-se na estrada e saibam que a mamãe vai ficar te esperando no estacionamento.
O menino arremessou o telefone nas mãos do funcionário com pressa.
— Feito! Vamos!
Arthur tensionou o zíper da sua mochila de grife absurdamente cara, ignorando o risco de rasgar a peça exclusiva que custava milhares de reais.
Uma voz barítona trovejou dos degraus superiores.
— A bagagem já está despachada?
Cícero descia majestosamente os degraus de mármore, abotoando os punhos do seu sobretudo impecável.
O garoto atirou o fardo luxuoso contra o peito do funcionário.
— Cem por cento pronto, papai, inicie os motores!
O patriarca varreu a sala com o olhar e confiscou o controle do veículo das mãos trêmulas do empregado.
A insegurança dominou a postura do administrador.
— O senhor descarta por completo a proteção de um motorista profissional para esta jornada, senhor?
O empresário rechaçou a oferta com um gesto afiado.
— A minha perícia no volante será o suficiente para o trajeto de hoje.
Ele direcionou um comando irrefutável ao herdeiro.
— Entra no carro.
O menino correu até o Bentley estacionado na porta da mansão, escalou até o banco do passageiro e travou o cinto de segurança, acenando histericamente pela janela espelhada para o pai que se aproximava.
Sob o olhar maravilhado de Arthur, o homem invadiu o habitáculo do motorista com uma elegância predadora, acionando a ignição que roncou como uma fera desperta.
O administrador acomodou a bagagem no porta-malas e curvou-se reverentemente junto à porta do motorista.
Ela não toleraria ser marginalizada no jogo de xadrez da própria ascensão social.
A iminência do casamento exigia submissão total, e a liberdade clandestina do noivo beirava o sacrilégio conjugal.
A audácia do homem em romper as correntes sem pedir permissão causava náuseas na sua alma controladora.
Transbordando ódio reprimido, ela transformou o café da manhã em um banho de sangue psicológico, humilhando a criadagem até extrair algum prazer sádico.
Com a arrogância restaurada pelo sofrimento alheio, marchou para ajambrar os caprichos megalomaníacos com os organizadores do evento cerimonial.
A empregada arrastava os pratos banhados por lágrimas amargas até que o administrador atirou um pedaço de papel em seu rosto.
— Engula esse choro no meu turno, garota, pois se a megera retornar e flagrar esse escândalo, você vai se dar muito mal sem aviso prévio.
A indignação rasgou a garganta da serviçal.
— O meu trabalho beirou a perfeição e pago o preço pelas inseguranças doentias daquela víbora! A verdadeira senhora desta mansão jamais rebaixou-se a nos torturar por pura diversão!
Os olhos do veterano fulminaram a novata com fúria.
— A rainha perdeu a coroa e a benevolência extinguiu-se deste lugar maldito, portanto cale a boca e reverencie a nova ditadura, ou pode ir embora daqui!
A ameaça da miséria esmagou a dignidade da jovem, obrigando-a a engolir a revolta para preservar o gordo salário na conta bancária.

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