A empolgação finalmente silenciou a mágoa.
— Combinado, nos veremos amanhã sem falta.
Eduarda sorriu com doçura.
— Vá para a cama e tenha lindos sonhos, meu querido.
O clique da chamada encerrada ecoou no silêncio do quarto.
Encarando a tela escura, o menino resgatou a promessa feita pelo pai de conduzi-lo até o próximo encontro com a mãe.
A lealdade infantil o impeliu a notificar o patriarca sobre o compromisso selado.
Com os pezinhos calçados, ele deslizou furtivamente pelos corredores como uma pequena sombra.
O administrador da casa surgiu na curva da escada, deparando-se com a fuga noturna.
O funcionário indagou polidamente.
— Posso ajudá-lo a encontrar algo pelos corredores, senhorzinho Arthur?
Arthur sacudiu as mãos em negativa.
— Não é necessário, pois apenas desejo saber se o meu pai está disponível para uma conversa importante.
O homem gesticulou em direção à imponente porta de madeira escura.
— O patrão acaba de se recolher ao escritório e estou a caminho de lhe servir um lanche, gostaria de me acompanhar?
Só então o garoto focou a visão na luxuosa bandeja prateada sustentada pelo empregado.
Ele concordou silenciosamente e marchou atrás do protetor improvisado.
Dois golpes sutis na madeira trouxeram uma permissão ríspida do interior da sala.
O administrador da casa abriu a porta para que o garoto entrasse no escritório.
O escritório era era um lugar onde levava bronca na mente da criança, sempre associado a repreensões severas e punições rigorosas.
O ambiente transpirava uma atmosfera hostil e intimidadora para os seus sentidos frágeis.
O funcionário anunciou a presença incomum.
— O menino Arthur deseja vê-lo, senhor.
A atenção do empresário desligou-se dos relatórios corporativos na tela, refletindo a luz artificial fria através das lentes de seus óculos impecáveis.
A voz do garoto soou como um sussurro amedrontado.
— Papai.
Ignorando o silêncio pesado, Cícero removeu a armação do rosto e ocupou a poltrona, ordenando com um gesto imperial que o filho se aproximasse.
Obediente como um soldado diminuto, Arthur posicionou-se no assento estofado.
A bandeja foi acomodada sobre a mesa e o funcionário foi sumariamente dispensado do aposento.
O estrondo da porta selando o ambiente precedeu a pergunta seca.
— O que o traz aqui a esta hora?
A postura passiva do pai encorajou a bravura da criança.
Ele piscou os olhos rapidamente.
— Conversei com a mamãe agora há pouco e ela me prometeu um dia inteiro naquele novo parque de diversões.
Um sorriso tímido iluminou o rosto angelical.
— Maravilhoso, viajarei sob os cuidados do Damiano então!
Com a missão cumprida, ele saltou do assento estofado.
— Eu me retiro para o quarto agora, aguardo ansiosamente pela nossa jornada amanhã.
Um resmungo grave acompanhou a saída do menino pelos pesados portões de madeira.
— Vai.
No instante seguinte, os lábios rigorosos do empresário cederam a um sorriso genuíno.
A loucura havia dominado as suas defesas, pois a mera perspectiva de escoltar o menino até Eduarda provocava espasmos de pura euforia em seu peito.
Uma explosão de adrenalina intoxicante inundou o seu ser, varrendo o cinismo que o governara por anos.
Nem mesmo a paixão destrutiva por Weleska jamais gerara uma antecipação tão devastadora em suas veias.
A sua sanidade percebia que os grilhões que o atavam a Eduarda haviam transcendido o mero hábito conjugal.
Era um milagre macabro e inesperado que desafiava toda a lógica do seu intelecto frio.
E agora, ironicamente, ele implorava pelas migalhas de atenção dela usando o próprio filho como escudo.
A sua imaginação doentia projetava os cenários do reencontro iminente, ansiando por capturar qualquer lampejo de alegria nos olhos da ex-mulher.
Diante do abismo da própria alma, a confissão irrompeu irrefreável.
A imagem de Eduarda tornara-se a sua verdadeira e inescapável obsessão.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Diamantes e Cicatrizes