A voz de Cícero soava como a de um demônio recém-despertado das profundezas do inferno.
— Você é um completo lunático! Você perdeu o juízo! — Disse Eduarda com ódio, estremecendo levemente.
Cícero apenas sorriu, lançando um olhar de desdém para Rafael, que continuava imobilizado pelos seguranças no chão.
— Você acha que pedir o divórcio a deixará livre para ficar com ele ou com Franklin Nogueira? Eu vou te mostrar quem está no topo da pirâmide e a quem você deve lealdade e atenção. — Ameaçou ele.
— Se você pensa que pode me deixar, é melhor desistir dessa ideia. — Concluiu Cícero em um tom fantasmagórico.
Eduarda mordeu o próprio lábio com tanta força que quase o fez sangrar de pura indignação.
Ela amaldiçoava o dia em que conheceu Cícero; seus ataques de loucura o transformavam em um verdadeiro monstro.
— Você consegue ser ainda mais desprezível?! Cícero, você me causa repulsa. — Disparou Eduarda, encarando-o com os olhos marejados, mas exalando uma teimosia inabalável.
— Tanto faz, Eduarda. Eu não me importo com o que você diz. — Respondeu Cícero com indiferença, ignorando completamente os insultos dela.
Mas, ao proferir aquelas palavras, ele sentiu como se uma espada afiada tivesse perfurado seu coração, espalhando uma dor aguda por todo o seu corpo.
Até mesmo as pontas dos seus dedos formigaram com a dor.
Ele havia dito que não se importava com as ofensas dela.
Contudo, a única certeza que tinha era a de que não podia soltar a mão dela.
Ele temia que, se a soltasse por um único segundo, Eduarda desapareceria da sua vida para sempre.
Foi a primeira vez em sua vida que Cícero compreendeu a angústia insuportável de dizer algo completamente contrário ao que sentia.
Mas aquela parecia ser a única maneira de manter seu próprio equilíbrio e garantir que Eduarda continuasse focada nele, sem poder ignorá-lo.
Ele ignorou a dor latejante em seu peito e continuou a arrastá-la obstinadamente.
Ele se recusava a encarar o ódio que transbordava dos olhos dela naquele momento.
No fundo, ele sentia um medo paralisante de encarar o brilho ressentido naqueles olhos.
Eduarda lutou pelo caminho inteiro, mas ele a arrastou para fora do hotel e a empurrou para o banco de trás do carro, até que ela finalmente parou de resistir.
Eduarda virou a cabeça para observar o perfil dele, e, como se sentisse o seu olhar, ele a encarou de volta.
Os dois permaneceram frente a frente, fitando os rostos um do outro sem sequer piscar.
Parecia que tentavam desvendar os segredos ocultos por trás de cada feição.
— Você se apaixonou por mim, e é por isso que não aceita que eu te deixe. Você não suporta me ver com outros homens, enlouquece com as minhas interações sociais, e se recusa terminantemente a assinar o divórcio. O seu coração está doendo, então prefere me forçar a ficar ao seu lado do que me ver partir. É isso? — Disparou Eduarda, dissecando os motivos dele.
A suposição acusatória dela caiu como uma marreta esmagadora sobre o peito dele.
O coração de Cícero palpitou de forma violenta.
Ela observou a expressão atônita no rosto dele e abriu um pequeno sorriso, atingindo-o bem no fundo da alma.
Ele detestava aquele tipo de sorriso afiado, que cortava suas emoções e deixava seu coração sangrando.
Eduarda havia perdido completamente a ternura e a adoração que um dia dedicaram a ele.

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