Carla ficou atônita por um instante.
Aproveitou enquanto a tia arrumava as coisas e, no meio de um monte de roupas, pegou rapidamente uma peça para trocar.
Só então percebeu que, entre todas aquelas malas, quase nada era realmente do seu gosto.
A maioria das coisas ela havia comprado pensando que Enrique gostaria, e as roupas também tinham sido presentes dele, escolhidas de acordo com as preferências dele.
E, curiosamente, o estilo de muitas das peças lembrava muito o jeito de se vestir da Olívia.
Carla terminou de se trocar e ainda separou algumas roupas do monte.
Apontando para o resto das coisas, disse para a tia: "O que sobrar, pode colocar na plataforma de usados para vender, por favor."
O que os outros gostavam, ela já não queria mais.
Passou uma maquiagem leve e saiu apressada rumo à empresa.
Ninguém na firma sabia do relacionamento dela com Enrique; como ele mesmo dizia, não gostava de misturar trabalho com interesses pessoais.
Como secretária dele, Carla fingia não ter intimidade alguma no ambiente profissional.
Só nos cantos mais escondidos, Enrique a puxava para perto e a sentava na mesa com carinho.
Mas ela era muito competente, fechava muitos contratos para ele e, por isso, todos na empresa a tratavam muito bem.
Chamavam-na apenas de "Carla".
Ao chegar, Carla percebeu que o clima era de festa.
Olívia, usando uma roupa formal de trabalho, estava radiante no centro do salão, conversando animadamente com todos.
Os cabelos ondulados estavam lindos, e Enrique, ao lado dela, alto e elegante como sempre, sorria com seu olhar encantador.
Ela ouviu a voz dele soar: "A partir de agora, Olívia é colega de vocês, conto com todo mundo para recebê-la bem."
O chefão pedindo pessoalmente que cuidassem de alguém – e justamente de uma mulher.
O olhar do pessoal mudou imediatamente, cheio de malícia.
Alguém brincou: "Chefe, nunca vi o senhor fazer isso por ninguém... O que está acontecendo?"
Quando a curiosidade do pessoal passou e o grupo se dispersou, uma colega, sempre solidária com Carla, puxou sua mão, indignada.
"Carla, você não sabe, né? Não bastasse o Diretor Furtado trazer alguém de fora, ainda deu pra ela o cargo que era seu..."
Carla se assustou: "Como assim?"
"O cargo de chefe das secretárias ficou com ela," explicou a colega. "O Diretor Furtado disse que você não ia se importar."
Carla apertou os lábios.
Lá vinha ele, fazendo gentileza com o chapéu alheio.
Na verdade, ela se importava sim; valorizava cada conquista no seu trabalho.
Para conseguir aquela promoção, tinha passado várias noites em claro, organizando documentos, trabalhando até tarde nos cantos onde ninguém via.
Tudo para não ser subestimada, para não ser um peso para ele.
Depois de tanto esforço e com as metas batidas, finalmente estava esperando por aquela promoção.

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