Lucinda estava parada junto à janela do hotel, olhando a rua lá de cima.
Seu irmão, Douglas, abria pessoalmente a porta do carona para Julieta, protegendo a cabeça dela ao ajudá-la a entrar, e em seguida fechava a porta, dava a volta pelo capô e assumia o banco do motorista.
Na Família Siqueira, o único que atuava no mundo dos negócios era seu pai. E embora a influência deles se estendesse para além do Grupo Siqueira, o conglomerado era a verdadeira face da família. Por isso, precisavam manter a discrição em público, o que explicava por que o carro de seu irmão custava apenas pouco mais de um milhão.
No entanto, dali em diante, temia que ele não tivesse condições nem mesmo de dirigir um carro daquele valor.
A mensagem de seu pai naquela noite havia sido irredutível: se seu irmão insistisse em ajudar Julieta, teria que se virar completamente sozinho.
Despojado da aura de poder e dos recursos financeiros da Família Siqueira, o que restaria para o seu querido irmão?
Restaria apenas aquele pouco dinheiro guardado no cartão? E provavelmente tudo iria direto para os bolsos de Julieta naquela mesma noite.
Restaria a tão sonhada liberdade? Uma liberdade igual à que ela mesma possuía?
Ela preferia abrir mão desse tipo de liberdade; o que desejava de verdade era o suporte firme, a rede de contatos poderosa e a fonte inesgotável de recursos que a Família Siqueira lhe proporcionava.
Como diziam, ninguém dá valor ao que já possui. Ela repudiava a liberdade que lhe era imposta, enquanto seu irmão esnobava a grande responsabilidade que lhe havia sido confiada.
Lucinda baixou ligeiramente os olhos, mascarando o emaranhado de seus próprios pensamentos.
Na rua, o carro deu partida. Ao saber que Julieta estava a caminho do hospital para cuidar do Sr. Ximenes, Douglas parou no meio do trajeto para comprar alguns presentes de cortesia para a visita.
Julieta observava os presentes nas mãos dele; por mais que tivessem sido comprados na rua, o que importava era a nobreza da intenção. Mais significativo ainda era o fato de que Douglas estava indo com ela, pessoalmente.
Com ela, e pessoalmente — a combinação perfeita daqueles dois elementos era absolutamente essencial.
A visita à Tecnologia Distante ficaria adiada por enquanto.
Ela nem tinha a real intenção de ir até lá; havia mencionado a empresa apenas de passagem para provar ao avô que não era uma inútil e que ele não deveria desistir dela. Afinal, desde que superasse o atual impasse, continuaria sendo um talento muito promissor.
— Mas a sua ramificação familiar não é composta apenas por você e pela sua irmã? — questionou ela.
— Preparar a Lucinda também é uma excelente opção — concordou Douglas com um aceno.
Julieta lutou para não revirar os olhos. Era inacreditável que um homem de trinta anos ainda cultivasse aquela fantasia adolescente de que pela liberdade, tudo se pode sacrificar.
— Mas... — ela se virou ligeiramente na direção dele. — Eu realmente não queria que você acabasse prejudicado por minha causa.
— Não se preocupe com isso — tranquilizou ele, encerrando o assunto e caminhando ao lado de Julieta rumo ao quarto do hospital, carregando os presentes.
Ao ver que o próprio Sr. Siqueira havia feito questão de comparecer, o Sr. Ximenes ficou visivelmente surpreso. Jamais imaginaria que, diante de toda a ruína que se abatera sobre sua neta, o jovem das Famílias Siqueira permaneceria firme e leal ao lado dela.
A garota realmente tinha lá os seus truques na manga.
Após uma conversa breve e amigável, Douglas decidiu não se alongar para não incomodar o paciente; ao se despedir, o Sr. Ximenes fez questão de que Julieta o acompanhasse até a saída.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...