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Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim romance Capítulo 543

— Os remédios que você disse estar tomando ontem à noite não eram por causa do aborto, eram porque você contraiu uma doença venérea, não é? — Abel observava o estado deplorável dela. A primeira paixão de sua juventude havia, no fim das contas, se transformado em uma reles mancha de sangue de mosquito esmagado em sua palma.

— Julieta, você me dá nojo, e eu sinto o mesmo nojo de mim mesmo por ter investido tudo o que eu tinha em você. — Ele a encarou com dor e ressentimento.

Abel não poupou Julieta em suas palavras, e também não poupou a si mesmo.

Seu corpo, que vinha emagrecendo nos últimos dias, balançou, prestes a desabar.

Ele não olhou mais para Julieta.

— Três mil por mês, durante quatro anos. Se quiser, pegue; se não quiser, fique sem nada.

— Por favor, agende a cirurgia e prepare um plano de tratamento contínuo. — pediu Abel, virando-se para o médico e sentando-se novamente à frente dele, esforçando-se para manter a educação e a decência de quando atuava como Diretor Rocha.

— Em estágios iniciais não é necessário cirurgia — respondeu o médico. — Injeções e medicamentos, aliados a exames de acompanhamento regulares, são suficientes. Você é alérgico a penicilina?

— Por favor, me dê também uma lista de precauções para o dia a dia. Eu não quero colocar ninguém à minha volta em perigo. — disse Abel balançando a cabeça em negação, mas logo sua preocupação recaiu sobre as pessoas ao seu redor.

Ele trocou contatos com o médico para receber as orientações online. Agora, precisava buscar os remédios, tomar a injeção e, depois, poderia ir para casa.

O mais importante era que não queria ver Julieta; dividir o mesmo espaço que ela o fazia sentir que não conseguia sequer respirar.

Julieta levantou-se cambaleando e correu atrás dele, repetindo a mesma ladainha de que Abel não podia abandoná-la. Não obteve resposta alguma e apenas observou o carro afastar-se, levantando poeira.

Sentado no veículo, Abel exibia uma expressão complexa. Não sabia que desculpa plausível usar para convencer seus pais e sua irmã a fazerem exames de saúde. Afinal, a família convivia diariamente, dividia as refeições e, por vezes, compartilhava o banheiro. Sem que fossem testados, ele não teria paz.

— O Ano Novo está chegando e este ano já está no fim. Como já estamos no hospital, vamos fazer um check-up. A partir de agora, todos da nossa família farão exames anuais. Se o tumor no cérebro da mamãe tivesse sido descoberto mais cedo, ela não teria sofrido tanto. — declarou Abel após refletir por um instante, sentindo um turbilhão de emoções ao deparar-se com a preocupação dos pais e ao ouvir a irmã chamá-lo de irmão no Hospital Coração Sereno.

A família inteira achou a ideia sensata.

Branca foi a que mais concordou com a proposta. O tumor não a matou, mas a terrível notícia do diagnóstico quase a matou de susto.

Inês.

Embora nunca tivesse tido relações com Inês, e apesar de ela não aparecer em casa com frequência naquela época, ele temia a mínima possibilidade de algo ter acontecido.

Ele já havia prejudicado a vida de Inês por quatro anos e não podia arruinar o resto de seus dias.

Depois de fazer companhia para a mãe no hospital, Abel arrastou seu corpo cansado e pesado de volta à Mansão Serra Sul à noite.

Inês tinha muito trabalho durante o dia e só estava livre à noite. Calculando o tempo, Abel chegou à entrada do lote 9 da Mansão Serra Sul, onde dois cães rapidamente começaram a latir em sua direção.

Cães, ele já não temia.

Abel não gritou nem fez escândalo; permaneceu imóvel como uma estátua de madeira em frente à casa número nove, deixando o vento gelado açoitar seu rosto e suas orelhas.

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