Ao ver o semblante miserável de Julieta, e lembrando-se da própria mãe ainda presa num leito de hospital, Abel endureceu o coração:
— Julieta, eu não tenho mais dinheiro. Tudo o que eu ganhei foi gasto com você, e você esbanjou tudo em futilidades e luxo.
Julieta sentiu um nó na garganta.
— Mas aquelas eram fals...
— Você acha que o juiz não saberia distinguir o que é falso? — rebateu Abel de imediato, esboçando um sorriso amargo. — O único incapaz de distinguir a verdade fui eu, do começo ao fim.
Julieta percebeu que o ódio que Abel nutria por ela era definitivo, mas ainda precisava garantir a sua própria sobrevivência.
— Abel, você tem dinheiro. Só preciso que me dê um pouco, apenas uma pequena quantia.
— Esse dinheiro é para o tratamento médico da minha mãe! — Abel arregalou os olhos, em completo choque. — Julieta, como você tem a coragem de me pedir isso?
Repreendida com tanta aspereza, Julieta abandonou as aparências e desabou:
— Abel, foi por sua causa que eu perdi o meu filho! Foi por sua causa que eu nunca mais poderei ser mãe!
O argumento atingiu em cheio a consciência de Abel.
Ainda assim, ele manteve-se irredutível quanto ao dinheiro destinado à cura de sua mãe:
— Eu posso me casar com você.
Julieta engasgou:
— O quê?!
Ela não queria se casar!
Ela queria dinheiro!
Abel repetiu:
— Eu posso me casar com você. Também posso abrir mão de ter filhos. Não me importa se você pode ser mãe ou não.
Julieta adotou um tom de profunda indignação e devolveu a pergunta:
— Abel, você acha mesmo que podemos nos casar no estado em que as coisas estão? Você quer que eu passe o resto da vida encarando o homem que me machucou e que destruiu o meu bebê?
— E por acaso eu não teria que encarar, todos os dias, a mulher que me enganou e arruinou a minha vida? — rebateu ele.
Farinha do mesmo saco.
Julieta sentia que a sua vida havia virado um verdadeiro pesadelo. Se não fosse por aquele julgamento, jamais teria chegado a esse beco sem saída.
Julieta identificou ali uma faísca de esperança e a sua feição suavizou-se de imediato:
— Tudo bem, Abel. Não vou mais incomodá-lo. Fico no aguardo da sua ligação. Ainda preciso voltar para tomar o meu remédio.
— Remédio? — Abel franziu a testa, desviando o olhar, quase que por instinto, para o ventre dela.
A resposta de Julieta foi propositalmente evasiva:
— É para a minha recuperação. Abel, por favor, me dê uma resposta o quanto antes, sim? É uma emergência. Se você me ajudar desta vez, prometo nunca mais vir perturbá-lo.
Abel entrou em casa e fechou a porta com firmeza.
Não restou nem sinal do cuidado de outrora, quando fazia questão de acompanhá-la até o destino seguro, muito menos ficou parado a observar enquanto ela partia.
Ele dirigiu-se ao banheiro e, ainda de roupa, deixou a água quente escorrer do topo da cabeça até os pés.
Manteve os olhos cerrados.
A água morna deslizava pelo seu rosto, misturando-se ao gosto salgado de suas próprias lágrimas.
Por fim, ele tirou as roupas molhadas, terminou o banho e atirou-se na cama para dormir, tão exausto que não se deu conta de nada ao seu redor.
Ainda assim, o sono continuou a ser atormentado. Acordou de sobressalto várias vezes ao longo da noite, levantando-se em definitivo apenas por volta do meio-dia.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...