Inês nunca imaginou que arrumar o banco do carro causaria tamanha confusão.
Como estava nervosa e ocupada, não perguntou a Rodrigo os detalhes de como ajustá-lo; apenas sabia que os botões ficavam na lateral do assento e começou a apertá-los às cegas.
O banco reclinou-se inteiramente, transformando-se numa cama.
Ela acabou deitada de costas num piscar de olhos, com a visão voltada para o teto do carro.
Rodrigo permaneceu em silêncio por um instante.
— Inês, não precisamos ter pressa para dormir.
Desta vez, ele segurou a mão de Inês e a guiou até o botão, pressionando-o junto com os dedos dela.
O encosto subiu lentamente, e Inês voltou a sentar-se, com os cabelos um pouco despenteados.
Ela repousou as duas mãos no volante, apertou-as com firmeza e soprou o ar para a frente, afastando a franja que lhe caía sobre os olhos.
Inês respirou fundo olhando para a estrada. Não havia constrangimento em seu olhar, apenas a determinação de quem falhou numa experiência e estava disposta a tentar de novo.
— Rodrigo. — Ela virou o rosto, encarando o próprio batimento cardíaco recém-acelerado. — Acho que você está mexendo comigo.
Rodrigo fitou os olhos castanho-escuros dela.
— A minha presença já começou a mexer com você? — A voz do homem soou grave e magnética, num ritmo pausado, tão fácil de se perder nela quanto no abismo dos seus olhos.
— Não é bem assim que a frase diz.
Rodrigo assentiu:
— É, a frase original é...
— Rodrigo. — Inês o interrompeu mais uma vez. — Você mesmo disse: só temos uma hora por dia para praticar a direção. No resto do tempo, somos muito ocupados.
Rodrigo deu um leve sorriso.
— Continue.
O tempo que se seguiu foi marcado por muita concentração de ambas as partes. Inês não cometeu mais nenhum erro grave, apenas lidou com a discrepância natural entre a teoria e a prática, o que exigiria mais tentativas para dominar com perfeição.
Uma hora depois.
Tendo terminado o treino, um voltou para a sala da presidência, e a outra, para o laboratório.
Antes de entrar no laboratório, Inês parou diante da pia, com a frase de Rodrigo no carro ecoando repetidamente em sua mente.
— O Diretor Simões avisou que não era preciso esperar. Antes dos feriados, ele costuma ficar com a agenda bem mais apertada.
"E mesmo com toda essa correria, ele arranjou uma hora no meio do dia para me ensinar a dirigir", pensou Inês.
— Vamos.
— Pois não, Sra. Jardim.
Inês passou o trajeto de volta um tanto distraída. Ao chegar à Mansão Serra Sul 9, viu pelo reflexo da janela que a Sra. Silveira estava atarefada. Havia várias caixas de papelão no centro da sala.
— Sra. Silveira.
— Sra. Jardim, que bom que chegou! Vá lavar as mãos e siga para a sala de jantar, vou servir a comida num instante.
Inês saiu do lavabo e observou as caixas no chão. Seus pertences haviam sido embalados com cuidado, e as pinturas e cartas enviadas pelo orfanato foram colocadas numa caixa nova, perfeitamente organizadas.
A Sra. Silveira passou pelo saguão trazendo os pratos e perguntou:
— A Sra. Jardim já decidiu o dia da mudança? Precisamos convidar os mais velhos da sua família primeiro para abençoar a casa com um jantar inaugural. Depois, no Ano Novo, convidamos os seus amigos. A Sra. Jardim precisa me passar a lista de convidados para eu me organizar, saber quantas pessoas vêm e se há alguma restrição alimentar.
— Certo, daqui a pouco eu falo com você.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...