Apesar do estado de alerta, ele manteve uma expressão incrivelmente serena ao olhar para Inês:
— Não vá deixar a farsa ser descoberta.
Que farsa?
Ah, a história de serem namorados.
A mente de Inês deu um branco por um instante. Ela piscou e perguntou:
— Esse favor também inclui garantia pós-venda?
Rodrigo:
— ...
Ele não sabia de onde ela tirava aquelas metáforas estranhas.
Mas apenas assentiu com a cabeça:
— Sim.
Inês pensou que, já que o havia contratado por meros oitocentos reais em vez de cem mil, ter um serviço de garantia pós-venda pelo que havia acontecido antes não era má ideia.
Rodrigo pretendia observar um pouco a estrutura e o tamanho daquele orfanato, mas foi apressado por Inês, que o puxava para conhecer a tal Dra. Barros que ela tanto mencionava.
Quando descobriu qual era o orfanato de Inês, Rodrigo havia feito uma pesquisa rápida. A diretora se chamava Yara, tinha cinquenta e um anos e já havia sido premiada como trabalhadora destaque do estado.
Eram as pessoas da família de Inês.
E pessoas da família que já conheciam Abel.
Ao parar diante da porta do escritório da diretora, Rodrigo surpreendentemente sentiu um frio na barriga.
— Dra. Barros, o meu amigo chegou. — Inês e Rodrigo pararam na frente de Dra. Barros, e ela o apresentou seriamente. — O nome dele é Rodrigo.
Yara ergueu o rosto e colocou os óculos de leitura ao se levantar. Imediatamente percebeu que a aura daquele homem superava a de qualquer figura importante que ela já havia conhecido em congressos estaduais. Ela estendeu a mão para cumprimentá-lo e disse:
— Muito prazer, Sr. Simões.
— Prazer, Dra. Barros. Pode me chamar apenas pelo meu nome, assim como a Inês. — Rodrigo, embora raramente sorrisse, era extremamente educado e exalava uma nobreza que parecia enraizada em seus ossos.
Ele não era apenas uma figura importante.
Era uma figura importante e extremamente nobre.
Yara lançou um olhar para Inês, contendo a vontade de perguntar se ele era namorado, pretendente, apaixonado, ou se, de fato, era apenas um amigo comum.
Embora fosse apenas a humilde diretora de um pequeno orfanato e não tivesse convivido com a alta sociedade, ela sabia muito bem que grandes personalidades possuíam seus próprios círculos sociais elitizados, formados desde a infância.
Fazer amizades novas naquela altura da vida com alguém tão distinto era algo raro. Muito raro.
— Dra. Barros, eu vou deixar a entrega dos casacos de inverno desta noite para vocês. Como ainda está cedo, pretendo descer para procurar pistas sobre o Mike. — Inês se sentia inquieta por dentro.
Dra. Barros entendia a pressa dela, mas ainda não sabia se o homem parado ali na sua frente era confiável.
De repente, Rodrigo tirou seu documento de identidade e o colocou sobre a mesa de Dra. Barros:
— Por favor, fique tranquila.
Dra. Barros ficou surpresa.
Inês também.
Em seguida, Rodrigo pegou um cartão de visitas e o deslizou suavemente na direção da diretora.
— Se algo nos acontecer, ligue para qualquer um dos números impressos aí. Se a Inês sofrer qualquer acidente por minha causa, toda a reputação do Grupo Simões servirá como garantia.
As empresas sob o guarda-chuva do Grupo Simões não podiam ser contadas nas mãos de duas pessoas. Especialmente para quem estivesse na passarela do topo da Torre Simões olhando para baixo; a visão era a mais pura manifestação física de um império comercial.
A reputação do Grupo Simões pesava tanto quanto todos os arranha-céus que tocavam as nuvens juntos.
O olhar de Inês vacilou levemente.
Yara, de repente, abriu um sorriso e guardou tanto a identidade quanto o cartão:
Lucinda assentiu:
— Chegaram agora e já vão embora?
Yara percebera desde cedo a atmosfera tensa entre os três. Seus olhos se moveram e ela logo improvisou um sorriso:
— Eu tive um problema urgente para tratar com a Inês e precisei que ela viesse às pressas. Já resolvemos tudo, então é hora de ela voltar.
Lucinda notou que Dra. Barros também começava a ficar na defensiva com ela e decidiu não prolongar o assunto, limitando-se a sorrir.
No entanto, por dentro, a sua cabeça fervilhava pensando no tal "problema urgente". Estava morrendo de medo de que a urgência tivesse a ver com o que ela desconfiava; afinal, a própria Julieta comentara que o retorno de Inês havia sido provocado por algo emergencial.
Enquanto conversavam, Inês sentiu de repente um fluxo de calor e disse para Rodrigo:
— Espere um pouco, vou ao banheiro primeiro.
A sua menstruação havia descido na hora do almoço daquele dia. Pelo menos ela não sentia cólicas.
Inês deu alguns passos, mas deu meia-volta e pegou a bolsa. Quase havia esquecido de pegar um absorvente.
O olhar de Lucinda seguiu de perto cada movimento de Inês.
A maioria das garotas entenderia perfeitamente o que significava dar meia-volta para buscar a bolsa naquela situação.
Um brilho reluziu nos olhos de Lucinda, que logo se lembrou do método de coleta de material para teste de DNA que havia pesquisado enquanto estava no quarto.
Se ela não confirmasse o quanto antes o motivo de Inês se parecer tanto com o pai dela e se a jovem tinha algum laço de sangue com a Família Siqueira, ela jamais conseguiria dormir em paz.
Inês voltou do banheiro enxugando as mãos em um lenço de papel. Deu um abraço rápido em Dra. Barros, acenou levemente para Lucinda e entrou no carro conduzido por Rodrigo.
Assim que afivelou o cinto de segurança, escutou a voz de Lucinda ao longe.
— Diretora, vou usar o banheiro rapidinho e já volto para o quarto para continuar editando os vídeos. Se precisar de ajuda com alguma coisa, é só bater na minha porta.
— Certo.
Inês ergueu os olhos e viu Lucinda caminhar exatamente em direção ao banheiro que ela acabara de usar.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...