Só agora Inês Jardim percebia que a ideia de lar de um homem era diferente da de uma mulher.
Para um homem, o lar era o lugar onde ele era o rei, com uma mulher para lavar suas roupas, cozinhar e dar à luz os filhos da Família Siqueira.
Para uma mulher, o lar era ter alguém que se importasse com seu bem-estar, alguém para enfrentar as tempestades juntos, uma companhia mútua.
Inês empurrou a porta e o som de um sino dos ventos ecoou. A loja estava vazia, exceto por uma atendente que ergueu o rosto e disse:
— Olá, a pessoa que a espera está no segundo andar.
Pelo visto, Abel Rocha havia reservado a loja inteira.
Quatro anos atrás não era assim. Naquela época, Abel era apenas um gerente de projetos na Tecno Universal, e não o diretor executivo.
As coisas mudaram e as pessoas também.
Inês subiu ao segundo andar. Abel estava sentado junto à janela no canto, exatamente no mesmo lugar de quatro anos atrás. A única diferença era que a decoração da loja estava muito melhor e as mesas haviam sido trocadas por outras de qualidade superior.
Sobre a mesa, havia dois copos idênticos de vitamina de frutas.
— Inês. — Abel levantou-se ao vê-la, exibindo um sorriso gentil. Vestia um terno impecável e o cabelo estava perfeitamente penteado, como se estivesse prestes a ir a um banquete.
No entanto, seus lábios estavam pálidos e havia um leve traço de cansaço entre suas sobrancelhas.
Sem dúvida, receber a notificação extrajudicial não havia sido fácil, e os espasmos estomacais não curariam tão rápido.
Inês aproximou-se, mas não se sentou. De pé, perguntou de imediato:
— O que você quer discutir? Quais são as condições?
Abel olhou para o rosto frio de Inês, sentindo um aperto sufocante no peito.
— Sente-se para conversarmos direito, pode ser? O Mike não vai conseguir falar com você. Fiz com que ele decorasse o meu número, e o número de contato no pingente dele também foi trocado pelo meu.
— Desprezível. — Inês cuspiu a palavra friamente e sentou-se, mas não tocou na vitamina de frutas sobre a mesa.
Ao vê-la sentar, Abel conteve um sorriso e perguntou:
— Por que não bebe?
— Eu só quero que você mantenha as aparências da nossa relação de casados publicamente.
As pupilas de Inês tremeram levemente, e ela soltou uma risada sarcástica:
— Manter a relação de casados? Só isso?
Como Abel tinha a audácia de usar os termos só isso para algo tão repugnante?
Abel notou o desgosto nos olhos dela e sentiu um gosto amargo na boca. Após uma pausa, continuou:
— O Mike não tem tido uma vida fácil desde que foi levado de volta. Ele só vestia roupas velhas. Quando Maicon o levou para comprar roupas novas, sentiu o tecido do casaco antigo; não tinha enchimento de pena, mal tinha algodão básico. Você sabe muito bem o quão frio faz na Cidade GIO durante o inverno.
Ele pegou o celular e mostrou as fotos de antes e depois de Mike com as roupas novas.
As roupas eram novas, mas o rosto do garoto ainda apresentava rachaduras causadas pelo frio, e os dedos estavam cheios de frieiras. Na foto anterior, ele estava de pé em um beco úmido e em ruínas.
Inês lembrou-se de sua própria infância. Isso era comum na época em que ela havia nascido, mas era muito raro de se ver hoje em dia, embora não fosse impossível.
A Cidade Alvorecer era uma metrópole cosmopolita, próspera e movimentada. No entanto, nem cada centímetro do Brasil havia acompanhado o progresso, e nem todas as cidades haviam alcançado esse nível de desenvolvimento.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Das Cinzas à Glória: A Ascensão da Sra. Jardim
Estou amando o livro, só gostaria de maiores atualizações....
Cade a atualização dos ultimos 10 capitulos?????...