Por um segundo, só consigo encarar a pessoa, sem acreditar que isso realmente está acontecendo.
Valentina está mesmo no corredor, usando um vestido azul, cabelos soltos e maquiagem perfeita.
Arrumada demais para uma manhã de domingo que, para o resto do mundo, significa pijama e preguiça.
Para ela, aparentemente, significa outra coisa.
— Amy, que prazer em te ver — diz, como se fôssemos velhas amigas.
— Oi, Valentina — respondo, mantendo a voz neutra. — Que surpresa.
— Ontem quase não tivemos tempo de conversar direito — fala, inclinando a cabeça. — Se bem que, do jeito que Dante surpreendeu a todos no evento, é claro que não teríamos tempo para isso.
Ela mantém o sorriso, me olhando de cima a baixo rapidamente.
— Quem imaginaria que você seria a senhora Ferretti, não é? Dante realmente soube esconder muito bem.
— Ele é discreto — respondo, me encostando no batente.
Valentina ri baixinho.
— Bem discreto. Conheço esse lado dele.
“Tenho certeza que sim”, penso, mas não me atrevo a comentar em voz alta.
— Ele está? — Ela continua, finalmente chegando ao ponto.
A encaro por dois segundos. Por fim, a educação vence.
— Sim. Ele está na sala.
Me afasto para deixá-la passar, a contragosto, porque não tenho alternativa civilizada que não me faça parecer insegura.
Valentina entra na cobertura e vai direto para a sala, como se a casa lhe pertencesse.
Dante se levanta do sofá quando a vê, sem pressa, e o sorriso fácil que esboça faz meu peito apertar um pouco.
— Valentina? — diz, franzindo as sobrancelhas.
Ela sorri e, dessa vez, o sorriso parece mais natural.
— Ciao, Dante.
— O que está fazendo aqui?
— Estava por perto e resolvi aparecer. Pensei em te chamar para almoçar.
Dante passa a mão na nuca por um instante.
— Você devia ter avisado.
— Achei que uma surpresa seria mais interessante.
Continuo parada onde estou, sem saber se participo da conversa ou se virei um móvel da decoração.
Dante olha para mim.
— Amy, você…
— Pode ir — interrompo, antes que ele termine. — Eu… peço um delivery.
Ele me observa por um momento, como se estivesse tentando entender por que eu disse isso.
— Eu ia dizer para você se arrumar para ir com a gente.
Arqueio as sobrancelhas, surpresa, e desvio os olhos para Valentina.
O sorriso, antes tão fácil, agora parece congelar por um instante. Mas ela se recompõe tão rápido que quase penso ter sido um delírio meu.
— Que ótima ideia — ela diz, virando para mim com a versão reconfigurada do sorriso. — Assim podemos nos conhecer melhor.

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