Quando finalmente consigo parar de encará-lo com os olhos, encontro Paige acenando na minha frente.
— Você me ouviu?
Pisco algumas vezes, tentando voltar para o presente.
— Desculpa. O que você disse?
— Eu sabia! Você não ouviu uma palavra.
Ela cruza os braços, fingindo indignação.
— Esquece. A senhora de cabelo estranho já passou.
Solto uma risada, balançando a cabeça.
Por alguns minutos, conseguimos voltar ao nosso passatempo favorito: observar as pessoas discretamente e inventar histórias sobre elas.
Enquanto rimos, tento não olhar e procurar Dante novamente, mas é em vão.
E é em uma dessas tentativas frustradas de não procurá-lo com os olhos que encontro dois rostos familiares.
Sem perder tempo, eles vêm na minha direção.
— Então realmente é verdade — meu pai diz, se aproximando. — Você está trabalhando aqui.
Respiro fundo, encarando meu pai, que usa um smoking que já viu dias melhores. Depois, olho para minha mãe ao lado dele.
— Pai. Mãe. Como vocês estão?
Meu pai me observa como se estivesse tentando decidir qual versão de mim é mais decepcionante: a que está aqui como funcionária ou a que insiste em existir fora do que ele planejou.
— Estamos bem — ele responde, seco, sem realmente responder. — Melhor do que você provavelmente esperaria.
Minha mãe, ao lado dele, mantém o mesmo sorriso controlado de sempre, daqueles que não chegam aos olhos.
— Você está… diferente — ela diz, me analisando com cuidado. — Mas está bonita.
— Obrigada, mãe.
Meu pai solta um riso curto, sem humor.
— Bonita? Ela estaria melhor se tivesse me ouvido — ele diz, balançando a cabeça. — Hoje não estaria aqui, trabalhando na empresa do homem que deveria ter sido a salvação não só dela, mas de toda a família.
O ar ao redor parece ficar mais pesado.
— Pai…
Ele levanta a mão, interrompendo.
— Você teve uma chance. Uma ótima chance de sair disso tudo. E escolheu… isso. Continuar grávida de um qualquer, tendo que trabalhar para não morrer de fome.
Paige, ao meu lado, fica rígida, mas disfarça comendo um canapé.
Sinto meu rosto esquentar, não sei se de raiva ou de vergonha. Talvez os dois.
— Sabe, pai, o senhor sempre foi péssimo em julgamentos.
Dou um passo para trás, ajeitando a bolsa no ombro.
— Só espero que não se arrependa e me procure quando perceber que esse é mais um deles.
Não espero resposta. Viro de costas e me afasto, deixando Paige praticamente correndo para me acompanhar.
— Isso foi… completamente desnecessário — ela diz, baixo. — Desculpa, mas… que tipo de pai fala isso em público?
— O meu — respondo, seca demais até para mim mesma.
Paramos em um canto mais isolado perto das janelas, longe dos chatos, perto da comida, segundo a Paige.

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