No dia seguinte Milena checou o relógio pela terceira vez em menos de dez minutos. Na mesa da sala de descanso, o bule de café esfriava e a xícara já estava esquecida. A única coisa em que conseguia pensar era em dar finalmente a notícia da gravidez.
Marcelo havia passado o dia fora, saiu antes do amanhecer em uma viagem curta para resolver negócios da família. Foram apenas algumas horas, mas que para ela pareceram eternas.
Milena tentou se distrair com o trabalho remoto, com as tarefas do hospital e da faculdade, mas nada fazia o tempo passar mais rápido.
Quando a noite chegou, ela estava sentada na cadeira perto da janela, virou o rosto pela vigésima vez e sentiu o coração bater mais rápido e um sorriso iluminado surgiu quando viu Marcelo entrando no campus.
O professor explicava algo, mas ela não prestava atenção, forçou terminar aquela aula para que enfim pudesse ir até o escritório dele.
Assim que deu o intervalo, levantou-se rapidamente, pegou a caixinha com os quatro sapatinhos de crochê brancos que uma enfermeira fez quando soube que Milena estava grávida, a ultrassom e o resultado do exame.
— É agora bebês...— murmurou enquanto andava.
O corredor parecia mais longo do que o normal. Cada passo aumentava o peso no peito. Quando se aproximou do escritório reduziu o passo instintivamente.
Naquele momento a porta do escritório de Marcelo se abriu e Katherine surgiu. A expressão dela carregava algo insolente, uma satisfação perigosa.
Por um breve instante, as duas se encararam, Milena tentou ignorar a presença dela, mas o incomodo era inevitável.
Então, num gesto calculado, Katherine passou os dedos devagar pelos próprios lábios, como quem limpa um beijo. O movimento foi suave, quase inocente, mas o significado caiu pesado sobre Milena.
— Ops! Que droga… — murmurou, observando a ponta dos dedos. — Meu batom borrou.— Ela ergueu os olhos, encontrando os de Milena.— Você sabe como é, Marcelo sempre beija com força demais.
O estômago de Milena revirou. As mãos suaram, e o coração bateu tão forte que o som invadiu seus ouvidos.
Katherine sorriu. Um sorriso lento, venenoso, saboreando o impacto da própria crueldade. Caminhou até Milena com passos firmes, o salto ecoando como uma contagem regressiva.
— Sabe, querida… — murmurou, aproximando-se até que o perfume doce e sufocante a envolvesse. — O mundo de Marcelo é imprevisível. Eu avisei, lembra? Uma mulher como você pode ser substituída de um dia para o outro.
Milena engoliu em seco, tentando se recompor, mas a voz não saiu.
Katherine inclinou-se um pouco mais, os lábios quase roçando o ouvido dela.
— Sabe, talvez não demore muito para isso acontecer. Ele vai procurar alguém mais interessante, talvez ele já tenha encontrado o que procura em mim.
— Você... está mentindo.— disse num fio de voz.
Katherine passou a mão no rosto de Milena, num gesto calculado.
— Preciso te contar um segredo. Os médicos disseram que minha irmã pode acordar a qualquer momento. Você está com os dias contados garotinha. — continuou Katherine, quase num sussurro triunfante. — Você só está aqui porque o destino deu uma pausa. Mas ela vai voltar, Milena… e quando isso acontecer, ele não vai precisar de você.
Milena deu um passo para trás apertando os dedos na alça da bolsa. Katherine desceu o olhar na barriga dela e estendeu a mão.

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