Milena acordou com a boca seca e o estômago revirando. Fechou os olhos com força, respirou pelo nariz e tentou se convencer de que era só mais um dia comum.
Fazia quase duas semanas que a tontura aparecia sem aviso, acompanhada de náuseas que subiam pela garganta. Ela já havia faltado duas aulas por causa disso, inventando dor de cabeça para os professores. Talvez pudesse ser uma junção de tudo que estava acontecendo com ela nos últimos dias.
Para não incomodar o Marcelo, ela decidiu guardar para si, fazia seu trabalho no hospital, visitava o pai e quando estava bem ia para faculdade e encarava de frente o bullying disfarçado de aviso.
Marcelo havia voltado da sua viagem mais calado. Se o silêncio dele já era difícil de enfrentar, agora se tornava insuportável. Apesar dessa mudança, tinha um pouco mais de cuidado nas poucas palavras, e a demonstração de carinho era mais recorrente.
Quando desceu para a cozinha após um banho, Ayla estava de costas, preparando o bacon. O cheiro forte a acertou em cheio. Milena parou na porta, engolindo em seco, e forçou um sorriso.
— Bom dia.
Marcelo que estava sentado respondendo alguns emails, virou-se imediatamente. Um segundo foi o suficiente para ele perceber. Os olhos dela fundos, a pele quase transparente.
— Vem cá. — Ele largou a xícara e foi até ela. A mão grande tocou a testa dela, depois deslizou para a nuca. — Você está gelada e suada ao mesmo tempo. De novo isso?
— Só um enjoo passageiro. — mentiu, tentando se afastar. — Já passa.
Ele não deixou. Em vez disso, desapareceu pelo corredor e voltou menos de um minuto depois com uma sacolinha branca da farmácia da esquina. Colocou na frente dela sem cerimônia.
— Faz o teste.
Milena olhou para o pacotinho e depois olhou para ele.
— Marcelo… minha menstruação desceu há nove dias. Eu sei fazer conta.
— Eu também sei. Mas também sei que cada corpo reage de um jeito. Faz. Por favor.
A voz dele estava calma demais. Era o tom que usava quando não aceitava recusa. Milena pegou o teste com as mãos trêmulas e foi para o banheiro. Trancou a porta, encostou a testa na madeira fria e respirou fundo. Tinha medo de estar grávida. Tinha mais medo ainda de não estar.
Dois minutos depois, o resultado era o mais claro possível.
— Negativo...— ela sussurrou em um fio de voz.
Ela saiu segurando o palitinho como se queimasse. Marcelo esperava do outro lado, encostado na parede, braços cruzados. Quando viu o símbolo, algo passou rápido pelo rosto dele, uma sombra que ele tentou esconder imediatamente.
Ele pegou o teste da mão dela com cuidado.
— Tudo bem... — disse, rouco. — Tudo bem.

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