Milena acordou devagar, ainda presa à sensação morna do sono. A cama ao lado estava vazia.
Por um instante, pensou que tivesse imaginado tudo da noite anterior. Mas então ouviu a voz baixa vindo do outro lado do quarto.
Marcelo estava de pé, em frente à janela. O celular pressionado ao ouvido. O corpo rígido demais para alguém que acabou de acordar.
— Não é tão simples assim, nonno… — ele disse, contido, mas tenso. — Essas coisas levam tempo.
Milena se sentou na cama, sem fazer barulho.
— Você prometeu, meu neto. — a voz de Olavo veio abafada pelo telefone, mas firme. — Se quer manter o controle, precisa agir. Milena precisa engravidar logo. Ou as coisas vão sair do controle.
O coração de Milena deu um salto seco.
— Não fala assim. — Marcelo respondeu, a voz mais dura. — Milena não é uma máquina para fazer filhos a hora que bem entender.
Houve uma pausa curta. Marcelo passou a mão pelos cabelos, respirando fundo.
— Eu sei filho... mas entenda meu lado. Seu pai está voltando para o país. — Olavo falou, fazendo Marcelo congelar. — E deixou claro: se você não resolver isso rápido, ele vende a empresa da sua mãe.
Marcelo fechou os olhos.
— Ele não teria essa coragem…
— Teria. E você sabe bem do que ele é capaz. — Olavo respondeu. — Essa é a última chance. Um herdeiro resolve mais do que você imagina.
O silêncio se estendeu por alguns segundos. Então Marcelo afastou o celular do ouvido e bateu a mão com força na parede, fazendo o vidro da janela vibrar.
— Chega, vô! — a voz dele subiu, carregada de raiva. — Eu não posso fazer isso com a Milena.
Milena levantou num impulso. Caminhou até ele e o abraçou por trás, envolvendo a cintura com cuidado.
Marcelo estremeceu no mesmo instante. A respiração falhou. O corpo, antes rígido, cedeu um pouco. Ele fechou os olhos, sentindo o calor dela contra as costas.
— Marcelo… — ela murmurou, baixo. — Está tudo bem. Podemos continuar tentando.
Ele virou devagar, ainda com o celular na mão. Quando encontrou os olhos dela, algo dentro dele se acalmou. A fúria deu lugar ao cansaço.
Marcelo desligou a ligação sem dizer mais nada. Então a puxou para si e a abraçou com força, enterrando o rosto no cabelo dela.
Milena apoiou a cabeça no peito dele, sentindo o coração bater acelerado.
— Vou precisar fazer uma viagem de alguns dias...— ele disse e Milena levantou a cabeça para encarar ele.— Quando eu voltar quero te dar as respostas que venho evitando. Só peço um pouco de paciência.
Ela concordou com a cabeça e o abraçou novamente. Após uns minutos eles entraram no banho juntos. Se amaram, se beijaram e se despediram.
Já na universidade, Milena atravessava o pátio distraída quando viu Katherine parada perto da entrada lateral.
Milena diminuiu o passo para não ser vista.
Katherine falava com uma garota loira, do terceiro ano, Milena a reconheceu. Sempre rodeada de gente, olhando como se o mundo lhe devesse algo.
Katherine retirou algo da bolsa. Um envelope. Entregou discretamente. A loira olhou e sorriu. Guardando na bolsa, assentiu satisfeita.
O olhar de Katherine se ergueu por um segundo. Cruzou com o de Milena. Ela sorriu com malícia caminhando em sua direção.

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