Ele pôde sentir claramente que aquela faca repentina havia antecipado a ativação do veneno em seu corpo.
Só depois de cuspir aquele sangue, a toxina explodiu de vez.
Durante o desmaio, seus pensamentos mergulharam num caos absoluto, a mente tomada por alucinações de todos os tipos; ele chegou a enxergar nitidamente aquela silhueta branca.
Quando abriu os olhos, o rosto de Jessica foi a primeira coisa que viu.
Naquele instante, algo em sua mente pareceu se romper de súbito, a razão se desfez completamente e, sem controle, puxou Jessica com força para seu peito.
Um desejo primitivo e impulsivo o guiou, querendo fazer todas as coisas mais perversas.
Mas, no momento em que a beijava avidamente, sentiu uma umidade suave em seus lábios.
Instintivamente levantou o olhar e viu que lágrimas brilhantes escorriam pelo rosto de Jessica, reluzindo na penumbra do quarto.
Ela estava chorando!
Aquela cena foi como um golpe pesado, atingindo seu cérebro confuso e, de repente, algo nele voltou a vibrar, devolvendo-lhe um pouco de lucidez.
Baixando o olhar, viu as marcas arroxeadas no pescoço de Jessica, sinais claros da violência de seus atos descontrolados, e também um pouco de sangue ainda nos cantos de sua boca, testemunha de sua loucura.
Será que tudo aquilo havia sido causado por ele?
Uma onda avassaladora de culpa tomou conta de seu coração.
Ele mal podia acreditar no que fizera com ela, sentiu-se menos que humano.
Ouviu então a voz delicada de Jessica, com um tom de mágoa: "David, acalme-se, você não pode se vingar de mim só porque eu já fiz algo errado com você..."
Vingança?
Depois de hesitar por um instante, David explicou: "A dor do ferimento ficou muito forte e, enquanto estava desacordado, tive um pesadelo terrível. Achei que ainda estava sonhando, por isso perdi o controle."
Ele escondeu de propósito a verdadeira razão do veneno em seu corpo.
Afinal, o que acontecera era tão estranho que nem ele conseguia acreditar.
Quando o veneno explodiu de vez, não só perdeu a razão, mas também libertou os sentimentos que havia tentado enterrar e reprimir com todas as forças: o desejo por ela ficou ainda mais intenso, quase incontrolável.
Foi a primeira vez que percebeu que estava apaixonado por ela.
Mas não era um sentimento puro; era um querer intenso, de possuir, invadir, dominar.
Por ser tão difícil de admitir, preferiu esconder, deixando que ela acreditasse que tudo não passara de um pesadelo, confundindo sonho e realidade, por isso havia perdido a razão, mesmo que por um momento.

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