A súbita batida na porta interrompeu os pensamentos de Jessica.
Ela esfregou os olhos cansados e, ao se levantar, bateu acidentalmente o joelho na quina da mesa, soltando um suspiro de dor. Nos últimos dias, quase não havia saído daquela cadeira; seu corpo parecia enferrujado.
Do lado de fora, David estava parado, sua figura alta preenchendo a entrada.
"Por que você veio?" Jessica perguntou, surpresa.
David não respondeu. Com o rosto fechado, entrou direto no quarto, esbarrando no canto da mesinha de centro no caminho, mas não pareceu sentir dor.
Quem sabe se ela havia ficado trancada chorando nos últimos dias.
Nessas horas, ele realmente odiava ser cego.
Ele se virou, a voz grave: "Você já está há dois dias sem comer. O que é, acha que é feita de ferro? Ou está querendo morrer de fome?"
Morrer de fome, para então ir encontrar Hugo?
Claro, essa última parte ele não ousou dizer, mas o tom ressentido era tão espesso que parecia não se dissipar, como um marido amargurado deixado de lado.
Jessica piscou, um pouco perdida: "Esqueci..."
Ela olhou para a pilha de documentos sobre a mesa e suspirou. O principal motivo era o trabalho; estava tão ocupada que esquecia até de comer e dormir. Agora, finalmente entendia como era para David, o "workaholic", trabalhar tanto que até esquecia das refeições.
Ao ouvir que ela "esqueceu", a mandíbula de David ficou ainda mais tensa.
Ela ainda estava sofrendo pelo Hugo, sofrendo tanto que esquecia até de comer? Essa constatação apertou seu peito.
"Já faz dois dias, Jessica. Você pode ficar triste pela partida do Hugo, mas não pode continuar assim para sempre." Sua voz soava abatida.
Ele também estava mal; seus olhos ainda não estavam bons, já fazia dois dias que ninguém cuidava dele...
E aquele papo de que ela ia cuidar dele? Palavras vazias!
Esses pensamentos fervilhavam na mente de David, mas nenhum deles foi dito em voz alta.


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