Capítulo 76 — O Que Restou Dela
A neve parou.
Como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
Adrian atravessou a rua em direção à clínica privada com passos silenciosos, o casaco escuro confundindo-se com a madrugada suíça. O prédio era elegante demais para ser apenas um centro médico. Vidros amplos. Segurança discreta. Luzes acesas em horários errados.
Aquilo era um esconderijo.
E ele sabia.
— Entrada lateral limpa — murmurou Daniel pelo comunicador.
— Sem disparos — respondeu Adrian. — Ainda não.
A mão dele tocou a porta metálica.
Fria.
Real.
Girou a maçaneta.
Destrancada.
Erro.
Ou convite.
Ele entrou.
O cheiro de desinfetante dominava o ambiente. Corredores silenciosos. Quadros modernos demais para um hospital. Câmeras em pontos estratégicos.
Tudo planejado.
Tudo observado.
Passos leves.
Controlados.
O coração batia mais rápido agora.
Não por medo.
Por expectativa.
Virou a primeira esquina.
Um guarda surgiu.
Tarde demais.
Um movimento rápido.
O corpo caiu.
Silencioso.
Adrian continuou.
Cada porta parecia esconder uma possibilidade.
Cada sombra parecia carregar o nome dela.
Até que ouviu.
Uma voz.
Feminina.
Fraca.
Distante.
O mundo parou.
Ele seguiu o som.
Chegou a uma porta branca.
Entreaberta.
Empurrou devagar.
E viu.
Lívia estava sentada em uma cadeira perto da janela.
Vestida com roupas claras.
O cabelo preso.
O olhar perdido nas montanhas.
Por um segundo…
Ele achou que estava vendo um fantasma.
— Lívia…
O nome saiu como um sussurro quebrado.
Ela virou lentamente.
Os olhos encontraram os dele.
Mas algo estava errado.
Muito errado.
Não houve choque.
Não houve lágrimas.
Não houve corrida.
Apenas… calma.
Uma calma que doeu mais que qualquer ferida.
— Você veio — disse ela.
A voz suave.
Distante.
Quase educada.
O coração dele disparou.
— Eu sempre venho.
Ele deu um passo.
Depois outro.
— Vamos embora.
O silêncio respondeu.
Ela olhou para o ventre.
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