Enquanto dirige em direção à casa dos pais, Ava sente o coração bater tão forte quanto o de uma criança que ficou perdida e agora estava voltando para casa. Cada quilômetro percorrido parece apertar mais o peito, como se a ansiedade ganhasse peso dentro dela. Suas mãos firmes no volante demonstram o quanto está nervosa.
Ela respira fundo, tentando manter o controle. Era aquilo que esperou durante semanas. Meses, na verdade. Rever os pais, contar que estava viva e pedir desculpas por tudo o que aconteceu. Mas, agora que o momento se aproxima, o medo toma conta; medo do julgamento, da decepção, ou pior… do olhar partido daqueles que ama.
“E se eles não me perdoarem? E se já for tarde demais?” — pensa, enquanto observa pela janela o céu que começava a escurecer.
No entanto, ela recua aquele pensamento, sabendo que, independente do que acontecesse, tentaria fazer o que era certo.
“Não posso desistir agora”, não quando já avistava as luzes da entrada da casa dos pais.
— Por favor, Deus… me ajude — murmura, com as mãos ainda no volante, e o coração martelando no peito.
Ela estaciona o veículo devagar, próximo à guarita da mansão.
A primeira surpresa vem logo que Frank, o segurança que trabalhava naquela casa desde quando ela era criança, olha para o interior do automóvel.
Os olhos dele se arregalam de um jeito que quase beira o pânico, como se estivesse vendo… um fantasma.
“Talvez estivesse mesmo”, Ava pensa. Afinal, para o mundo, ela estava morta.
— A-Ava? — Frank gagueja, com a voz saindo trêmula e os lábios entreabertos como se o ar lhe faltasse.
Ela sorri com educação, mesmo sentindo o nervosismo crescer em seu interior.
— Olá, Frank… meus pais estão em casa?
O homem pisca algumas vezes, como se estivesse tentando entender se aquilo era real.
— S-sim… eles estão… mas…
A boca dele tenta terminar a frase, mas o cérebro parece não acompanhar. Ele simplesmente congela.
— Só aperta o botão, Frank — ela diz suavemente, mas com firmeza. — Por favor.
O segurança, ainda sem acreditar, estica a mão devagar e aperta o botão. O portão se abre lentamente.
Ava engata a marcha e acelera o automóvel, atravessando os portões com o coração nas mãos.
Ela estaciona diante da entrada principal, desce do carro já sentindo o nó apertado na garganta. Seus olhos marejam antes mesmo de dar o primeiro passo em direção à casa. O ar parece mais pesado, cheio de lembranças e arrependimentos.
Cada passo até a porta principal traz de volta memórias adormecidas: os jantares em família, os risos no jardim, os conselhos que um dia desprezou; tudo por orgulho. Por escolhas erradas que a afastaram dos dois pilares mais importantes da sua vida: seus pais.
Agora, ali de pé, diante daquela mesma porta que um dia bateu ao sair, só conseguia pensar em uma coisa: queria pedir perdão. Mesmo que para isso precisasse cair de joelhos diante deles.
Respirando fundo, enxuga discretamente uma lágrima que escapa e então toca a campainha com mãos trêmulas, esperando que, do outro lado, ainda houvesse amor suficiente para recebê-la de volta.
A porta se abre em poucos segundos, revelando sua mãe, que arregala os olhos, enquanto seu rosto se empalidece. A mão de Rafaela, que ainda segura a maçaneta, começa a tremer.
— Filha…? — ela sussurra, sem acreditar no que vê.

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