Respirando fundo, tentando organizar a onda de emoções que as palavras de Charlotte acabaram de provocar, Ava solta suavemente as mãos da mulher e dá um passo para trás, erguendo o queixo. O olhar, embora ainda marejado, agora brilha com algo mais forte.
— Sei exatamente quem o Hector Moreau é — diz com firmeza, mudando até o tom de voz. — E é justamente por isso que ele não vai me manipular.
Charlotte a encara, surpresa com a mudança repentina de tom.
— Esse casamento é um acordo, Charlotte. Um plano. Ele não está me salvando, e eu também não estou me apaixonando, não se preocupe com isso. Estou apenas usando o que tenho nas mãos para corrigir o que me foi tirado.
Ela se vira de leve para o espelho, ajeitando uma alça do vestido, com o semblante sério.
— Eu não estou cega. Vejo o que ele é. Mas a diferença é que agora… eu me lembro de tudo.
Engolindo em seco, ainda preocupada, Charlotte comenta;
— Só me promete que vai continuar assim — diz, baixando o tom. — Forte. Lúcida.
Ava sorri de lado, mas é um sorriso amargo.
— Pode deixar. Não se preocupe com isso, porque, se alguém sair ferido disso tudo… não vai ser eu.
Com cuidado, Charlotte ajuda-a a ajustar a barra do vestido com delicadeza, cuidando de cada detalhe como se aquilo não fosse um erro. Ava observa seu reflexo no espelho, mas sua mente está distante.
— Para ser bem sincera com você, estou bem preocupada com meus pais — diz, em voz baixa. — Queria muito que soubessem que estou viva… Mas, ao mesmo tempo, não queria que se envolvessem nos meus assuntos. Não agora.
— Então por que não liga? — pergunta suavemente. — Só para dizer que está bem. Apenas para acalmá-los.
Suspirando com o coração apertado, ela responde:
— Porque se eu ligar… eles vão querer vir para cá imediatamente. E eu não quero arrastá-los para esse caos. Meu pai não entenderia. Ele tentaria interferir. E minha mãe… ela sofreria mais do que já sofreu.
O silêncio se estende por alguns segundos, até Ava voltar os olhos para Charlotte e notar a sua preocupação.
— Você está estranha desde que falamos dos meus pais — Ava comenta, encarando-a com mais atenção. — Mas… não é só isso. É como se… o peso pendesse para um lado específico.
Mesmo não respondendo, a expressão daquela mulher entrega mais do que qualquer palavra poderia dizer.
Dando um passo à frente, Ava fala com sinceridade:
— Você e o meu pai já tiveram um caso no passado, não é mesmo?
Rapidamente, Charlotte congela. Seus olhos encontram os de Ava, e por um instante, parece buscar uma rota de fuga — mas não encontra.
— Juro que não vou te julgar — Ava completa, um pouco mais compreensiva.
Respirando fundo, os olhos de Charlotte perdem o foco por um instante, como se voltassem no tempo.
— Conheci o seu pai no meu aniversário de 18 anos… — começa. — Eu decidi acampar sozinha naquela data. Queria fazer algo novo, me sentir livre. E foi nessa loucura que ele apareceu.
Ava a observa em silêncio, completamente atenta.
— Uma tempestade começou. Forte, inesperada. Minha barraca foi arrancada pelo vento. Estava assustada, sozinha e completamente vulnerável. E então… ele surgiu.

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