Já no quarto da casa, Ava abre a sacola que Hector lhe entregou e, com um suspiro sofredor, retira o vestido de dentro. Pela primeira vez, o analisa com mais cuidado.
O tecido branco escorrega por entre seus dedos com uma leveza tão delicada que a irrita. Era lindo — claro que era. Elegante, sofisticado, delicadamente provocador. Exatamente o tipo de escolha que Hector Moreau faria: algo que exalasse poder e feminilidade ao mesmo tempo.
Sem perceber, sente um incômodo crescer por dentro. A ideia de usar aquele vestido num casamento que não passava de um acordo mexia com ela mais do que deveria.
Não é real, ela lembra a si mesma. Nada disso é real.
Mas mesmo repetindo isso mentalmente, não conseguia ignorar o aperto no peito. Porque, de alguma forma, tudo parecia… mais definitivo agora.
Com delicadeza, pendura o vestido em um cabide e o encara por alguns segundos, como se esperasse que ele lhe desse algo — talvez uma saída.
Mas nada acontece.
E mesmo que não quisesse assumir, foi ela quem começou com tudo aquilo e teria que enfrentar de cabeça erguida. Mesmo que, por dentro, tudo estivesse uma bagunça.
Ava tira a roupa com calma, quase no automático, e veste o longo vestido branco.
O tecido desliza sobre sua pele, encaixando perfeitamente em seu corpo, como se tivesse sido feito sob medida. Ela caminha até o espelho e para diante dele, seus olhos correm lentamente pelo reflexo.
Era um vestido lindo.
Mas não era o certo.
Não era o vestido que havia escolhido.
Nem era o casamento de seus sonhos.
E definitivamente, não era o homem com quem imaginava estar no altar.
A imagem diante do espelho começa a se embaralhar quando as lágrimas enchem seus olhos. Piscando algumas vezes, Ava tenta conter, mas não consegue. O choro vem de dentro, pesado, silencioso e cheio de mágoas que ela vinha tentando enterrar.
Ela já havia escolhido seu vestido; com cuidado, com amor, com esperança. Havia sorrido para o espelho naquele dia, certa de que teria uma vida ao lado de alguém que amava.
Mas tudo aquilo foi roubado.
Por mentiras e por crueldade.
Cobrindo o rosto com as mãos trêmulas, enquanto todas as lembranças de seu passado revisitam a sua memória, ela nota a porta se abrir.
— Ava?
Doris entra devagar e para ao vê-la de costas, sacudindo discretamente os ombros. Ao se aproximar e ver o reflexo da jovem no espelho, entende tudo.
Seu olhar se suaviza. O coração aperta.
— Meu Deus… — murmura, colocando a mão sobre o peito. — Ava…
Mesmo tentando se recompor, limpando as lágrimas com as costas da mão, não consegue disfarçar.
— Desculpa — sussurra. — Eu só… eu só precisava…
Sem dizer nada, Doris se aproxima e envolve-a em um abraço silencioso e terno, como uma mãe que compreende uma dor que palavras não alcançam.
Doris continua abraçando Ava por mais alguns segundos, acariciando suavemente suas costas como quem tenta acalmar uma dor que conhece bem demais. Quando Ava finalmente se afasta, com os olhos ainda marejados, Doris segura suas mãos com delicadeza.
— Sei que não é fácil, meu bem… — diz suavemente. — Mas se acha que não consegue, é melhor desistir, não acha?
Ela enxuga os olhos e endireita o corpo.
— Eu preciso disso — responde. — Mesmo que não seja o que eu queira, esse casamento vai me ajudar com muita coisa. Não quero que as pessoas vejam a imagem de uma mulher fraca, impotente. Quero que saibam que, além de forte, eu superei o meu ex relacionamento bem rápido.
— Prefere viver de aparências, a ser feliz? — questiona Doris.
— A felicidade é uma grande mentira, Doris — declara, voltando a se encarar no espelho. — Nem sempre devemos dar lugar aos sentimentos.
— Você está falando como o Hector agora — comenta, reflexiva.
Dando de ombros, Ava solta o cabelo preto e deixa que os fios caiam sobre seus ombros, deixando-a mais atraente.
— Tenho uma boa notícia para você — comenta Doris, percebendo que Ava não queria conversar.
— Qual é?

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