Pela manhã, Isadora acordou mais uma vez com o travesseiro encharcado de lágrimas. Com os olhos inchados, se arrastou para fora da cama e pegou o celular.
Nos últimos dias, ela tinha mantido o celular desligado. Estava arrasada e não queria saber de nada do mundo lá fora. Assim que ligou o celular, ouviu o som das notificações e viu uma mensagem de funerária, cobrando que fosse resolver a papelada.
Só então se lembrou de que, apesar de já ter enterrado as cinzas de Aline, ainda havia muitos documentos e formalidades a serem resolvidos.
— Melhor assim... Depois de terminar tudo isso, posso finalmente ir embora daqui.
Ela apertou o pingente que carregava no peito e as lágrimas voltaram a cair:
— Aline, senti tanto sua falta...
Por mais que tivesse tentado não se entregar à tristeza, sabia que tinha fracassado. Antes de partir, a filha só se preocupava com ela, com medo de que ficasse infeliz.
Mas não havia como evitar. Só de pensar em sua filha, seu anjinho, sentia uma dor que a fazia querer chorar sem parar.
Aquela filha doce e frágil tinha se tornado apenas um punhado de cinzas. Ela não conseguia aceitar isso.
Vestiu-se de preto e seguiu para a funerária, onde assinou os papéis de maneira automática.
A voz irritada de uma funcionária cortou o ar:
— Vocês, como pais, são mesmo irresponsáveis, hein? Nem na última despedida da criança conseguem demonstrar um mínimo de consideração?
— Se não estão preparados para ter filhos, então nem deveriam ter. O pai até vai, mas a mãe agir desse jeito também?
Nos últimos dias, haviam tentado entrar em contato com os pais de Aline inúmeras vezes. Ou ninguém atendia, ou desligavam na cara deles. Em uma das tentativas, o homem furioso ainda os xingara de graça.
O que eles tinham feito para merecer isso?
Além disso, se nem nesse momento os pais conseguiam demonstrar um mínimo de atenção, como aquela criança devia ter sido tratada em vida? Talvez não fosse surpresa ela ter partido tão cedo...
Isadora não rebateu as acusações. Pelo contrário, focou no que mais a preocupou:
— Vocês conseguiram falar com o pai dela?
— Sim. Ligamos para ele e fomos recebidos com um monte de insultos antes de ele desligar na nossa cara.

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