PONTO DE VISTA DA AUTORA
Logo ali, o mundo de Amie desmoronou ao seu redor.
— O que quer dizer que ela não resistiu? — Os olhos dela se encheram de lágrimas enquanto agarrava o paletó do médico. — Fale comigo, doutor, me diga que Amie vai ficar bem.
— Sinto muito, Sra. Dennis. — Respondeu o médico, com uma compaixão genuína pela pobre menina. Ela não merecia o que lhe havia acontecido, especialmente depois de tudo pelo que havia passado.
— Ana. — Dennis engoliu seco ao a puxar de volta, pois ela se recusava a soltar a camisa do médico.
— Solta de mim! — Ela gritou, empurrando Dennis com força. — Saia fora!
Dennis estava prestes a se aproximar novamente, quando o médico levantou a mão para o impedir, lançando-lhe um leve sorriso que indicava que tudo estava bem.
Lentamente, Ana desabou no chão, envolvendo os braços em torno de si mesma, enquanto murmurava, quase inaudível:
— Não.
Pouco depois, ela balançou a cabeça com firmeza.
— Não. Amie não vai simplesmente me deixar. — Ela chorava enquanto corria pelo corredor.
Antes que alguém pudesse detê-la, ela abriu violentamente a porta do quarto de Amie, correndo até o lado da menina e arrancando o lençol que cobria seu corpo.
— Amie. — Ela disse, dando leves tapas nas bochechas dela com uma ternura inesperada. — Amie, acorda, mamãe chegou, Amie. — Repetia, o corpo tremendo sob o pranto, enquanto as lágrimas molhavam a camisola hospitalar que Amie ainda vestia.
Mesmo na morte, Amie parecia bonita, em paz. Finalmente em paz.
****
Com o tempo, Ana foi forçada a aceitar que sua primogênita havia partido para sempre.
Ela permaneceu entorpecida e silente enquanto Dennis a levava de volta para casa, sem pronunciar uma palavra.
Dennis, por sua vez, lançava olhares tristes para o banco do passageiro, desejando que ela pudesse, ao menos, ver sua presença, lembrando os momentos em que ela ficava em pé e tagarelava sobre o que acontecia na escola ou em qualquer lugar que passava, mesmo que eles soubessem.
****
Nos dias seguintes, Dennis ficou sozinho para cuidar de Justin. Delegou completamente os gerentes de todas as unidades dos seus bares e contatou sócios e clientes para os informar de sua pausa inesperada. Funcionários, clientes e parceiros demonstraram solidariedade, o aconselhando a se manter forte e desejando que a alma de Amie descansasse em paz. Ele sorria e os agradecia, mas estava tão despedaçado quanto Ana. Amie talvez não fosse sua, mas ela e Ana representavam o mundo para ele. Trabalhava como nunca por causa delas e agora, com uma delas irremediavelmente perdida, a única razão que o fazia seguir em frente era Justin e Ana.
Porém, Ana se recusava a falar com alguém. Desde o dia em que retornaram do hospital, ela se trancara no quarto de Amie, se recusando a comer ou a sair para tomar um pouco de sol.
Então, Ana passou a revistar suas coisas, tentando manter viva em sua memória a fragrância de Amie; enrolava os lenços vintage que tanto amava nos pulsos e dispunha todas as pinturas diante dela, imaginando a postura e a expressão de Amie ao criá-las.
Era tão injusto, pensava, relembrar como ela havia lutado para se manter viva, como todos lutaram tanto, só para que a morte a arrancasse de seus braços.
Seus pensamentos foram interrompidos abruptamente por uma batida na porta.
— Querida? Ana, por favor.
Ela suspirou e se deixou cair na cama, cobrindo todo o corpo enquanto abraçava o suéter favorito de Amie – aquele de corte largo que Dennis havia comprado para ela no terceiro aniversário.
— Tudo bem, você não precisa sair se não quiser. Apenas pegue a comida e coma, por favor.
Ela suspirou novamente. As palavras de Dennis eram tão distantes, tão intrusivas. Tudo o que ela desejava era mergulhar em suas lembranças de Amie.
— Saia fora. Não estou com fome.
Do outro lado da porta, Dennis exalou pesadamente. Justin se contorcia em seus braços e, imediatamente, ele começou a acariciá-lo com ternura, tentando fazê-lo voltar a dormir.
Seu olhar desviou da comida abandonada próximo à porta para a maçaneta, e ele rezava para que aquela tempestade não arruinasse a única âncora que o mantinha são durante todo esse tormento – seu casamento feliz e sua família.

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