AIDEN
Apoiei o cotovelo na mesa e levantei o celular com um gesto que misturava cansaço e resignação. Meus olhos percorriam repetidamente pela pergunta que havia digitado, enquanto, em determinado momento, balancei a cabeça.
— Não. Mesmo que seja anônimo, ficará óbvio que sou eu. Pelo menos para quem me conhece.
Sem me deixar abater, reformulei a pergunta:
‘Tenho um amigo. Ele tem dois filhos com sua primeira paixão, mas ele e ela se separaram por causa de certas circunstâncias. Meu amigo e sua primeira paixão estão ambos casados, porém com pessoas diferentes. Contudo, a filha mais velha não tem ideia de quem é seu pai. Como ele pode dizer à criança que é seu pai sem causar problemas? Afinal, seria aconselhável que ele contasse a verdade?’
— Sr. Aiden?
Levantei o olhar e, ao encontrar os olhos dos presentes, percebi que todos estavam fixos em mim.
— Sim? — Recordei com esforço o que havíamos discutido anteriormente. Ah, sim: a estratégia para vender nosso novo produto.
— Todos já deixaram suas opiniões sobre o novo design da campanha?
Eles negaram com a cabeça e, então, o gerente falou:
— É a sua vez de fazer uma escolha, senhor.
Com o olhar voltado para baixo, reli rapidamente a mensagem que havia digitado, postando-a no grupo e, em seguida, fechando o Facebook no meu celular. Quando voltei a erguer os olhos, a atenção de todos permanecia sobre mim, como se se perguntassem que tipo de chefe eu realmente era, aquele que, inevitavelmente, carregava problemas na vida pessoal.
Limpei a garganta e, com a tela do celular virada para baixo, o repousou sobre a mesa.
— Tudo bem. — Resmunguei ao me acomodar na cadeira e puxar o laptop para mais perto.
Com um olhar distraído, percorri os slides que desfilavam na tela por um tempo, até que, acenando com a cabeça, declarei:
— O terceiro.
Ergui os olhos novamente e, com voz firme, perguntei:
— Qual é o voto da maioria?
— O terceiro, senhor. — Respondeu o gerente.
Balancei a cabeça, demonstrando aprovação.
— Então está tudo certo. Continuem com a apresentação.
Assim, a reunião seguiu seu curso enquanto eu lutava para manter a concentração, interrompida pelo impulso de verificar o celular, ansioso para descobrir se algum comentário havia chegado, observando as respostas e tentando compreender a conclusão que se formava a cada nova leitura. Eu simplesmente não via a hora de aquele encontro interminável chegar ao fim.
— O senhor está bem?
Afastei o olhar do celular, surpreso, e respondi:
— O quê?
O olhar do homem que havia feito a pergunta, um dos funcionários mais antigos, se fixou primeiro no celular e depois em meu rosto:
— Está tudo bem, senhor?
— Sim, claro, estou bem. — Respondi, ajustando minha posição e empurrando o laptop para mais perto, como se tal gesto pudesse fazer alguma diferença.
— Quer encerrar a reunião mais cedo?
— Não, por favor, continuem. Em que ponto estávamos?
Em seguida, se leu:
‘Coloque-se no lugar da sua filha. Imagine que, neste exato momento, você descobre que a pessoa em quem confiava como pai não é, de fato, seu pai. Como se sentiria? Maravilhada? Traída?’
Pensei profundamente sobre essa questão antes de decidir pela última alternativa:
‘Gente, a pobre menina merece saber. Por favor!’
O comentário seguinte dizia:
‘Eu vi meus pais adotivos como meus verdadeiros pais por anos e os amo. Embora meus pais biológicos estejam mortos, quando descobri que meus pais adotivos não eram, de fato, aqueles que me faziam acreditar serem, senti uma dor imensa. Foi como viver uma mentira a vida inteira. Já que meus pais biológicos partiram (desde o meu nascimento), conhecer a verdade não mudaria nada, mas seria bom saber.’
Li aquele comentário repetidamente e pude perceber a profundidade da ferida que o comentarista carregava. Mesmo assim, continuei avançando nos comentários.
‘Ela ainda é uma criança, né? Conte para ela agora. Será uma revelação mais fácil de aceitar para todos vocês, pois, quando ela crescer, as coisas poderão complicar.’
‘Não vejo como o fato de ele revelar a verdade para a criança possa ser prejudicial. Eu o aconselharia a ser franco com ela.’
‘Apenas conte para ela, cara. Se ela descobrir sozinha, pode acabar nutrindo ressentimentos.’
‘Sem querer ofender, mas seu amigo é pedófilo? Um pervertido? Um viciado em drogas? É violento? Se ele não causará nenhum mal à criança, então você deveria o aconselhar a assumir seu papel na vida dela. Por outro lado, se houver risco, oriente sua primeira paixão a fugir com a criança e sua família ou a denunciar o caso à polícia.’
Depois de ler o último comentário, que exclamava em letras garrafais:
‘CONTE PARA ELA!’
Respirei fundo e, com a tela do celular voltada para baixo, repousei-o sobre a mesa.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Bilionário, Vamos Nos Divorciar