Após desligar o telefone, seu peito estava fervendo e uma sensação de fraqueza se espalhou pelo corpo.
Como esperado, ela teve febre à noite, suas bochechas queimavam.
Ela se virou e abraçou a coberta, tossiu algumas vezes, escondeu-se no tecido e, pouco depois, a manta já estava molhada de lágrimas.
Ela se forçou a pegar o ibuprofeno na gaveta e o engoliu sem água.
Era aquele mesmo sonho frequente; nele, havia o brilho da juventude e também a umidade do crescimento.
Danilo carregava-a nas costas por aquele caminho na montanha; ao ouvir os soluços dela, ele a consolou: "Ainda faltam duas horas para escurecer, está chorando por quê? Não vou te deixar aqui."
Ela sempre esperou ser aquela que seria firmemente escolhida.
Mas no fim, ele a abandonou ali mesmo.
A febre só passou às sete da manhã.
Quando chegou à empresa, ainda com a cabeça latejando, ela foi chamada ao escritório do chefe. O chefe era alguém que ela conhecera na faculdade, a família dele possuía algumas casas de leilões.
Naquela época, Glória não tinha conseguido o diploma e voltou para sua cidade natal perdendo um ano; ao retornar a Porto Real, foi contratada pela casa de leilões. Ela tinha trabalhado lá em meio período durante a faculdade e o chefe era legal.
O chefe, Sr. Ricardo, estava falando ao telefone no momento.
Após desligar, ele olhou para Glória: — O cliente de hoje é alguém muito importante, pegue as nossas melhores peças que estão guardadas.
Ela concordou e, enquanto entrava no carro, tossiu duas vezes.
— Não está se sentindo bem?
— É apenas um resfriado leve, cof, cof.
Quando ela estava tossindo de forma mais miserável, o portão do condomínio de luxo se abriu; e ao ver a pessoa em pé na porta, ela paralisou como se tivesse sido atingida.
Filomena estava requintada demais, elegante e calma.
Alguém os convidou a entrar.
Um saguão luxuoso e glorioso, criados bem treinados e a dona da casa vestida com sofisticação; aquela era uma cena que Glória só tinha visto em sonhos.
Mas Filomena tinha nascido com tudo aquilo.
Glória tinha que parar de tempos em tempos e depois continuar.
A campainha tocou; Filomena levantou a mão para interromper a explicação de Glória e foi abrir a porta pessoalmente.
A voz de uma criança ecoou do lado de fora: — Mamãe, o papai me levou para andar no pônei hoje.
Em seguida veio a voz de Danilo, um tanto mimada: — Foi uma certa menininha desobediente que fez questão de ir.
Ele usava roupas casuais hoje, uma blusa branca simples e calças pretas, as mangas dobradas revelavam linhas fluidas dos braços, sem a mesma rigidez de antes; parecia ter voltado à época em que era mais ousado e livre.
Glória recolheu o olhar, ainda segurando em silêncio o bracelete que aguardava apresentação em suas mãos.
Mas Filomena parecia ter se esquecido do que estava acontecendo por ali.
Até que Danilo perguntou: — Temos visitas em casa?
Foi só então que ela se lembrou de que já os ignorava há bons dez minutos: — Ah, você não me pediu para escolher um bracelete para a sua mãe? Eu não esperava que fosse a Glória fazendo a venda, fiquei bem surpresa.
A ponta dos dedos de Glória se enrolou. Ela finalmente entendeu por que não gostava de Filomena; embora Filomena nunca tivesse feito nada contra ela, as ações e palavras dessa pessoa sempre a faziam sentir inferior, como se aquele trabalho digno fosse algo desprezível aos olhos deles.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Amor Crônico