A primeira sensação que Júlia teve foi dor, só não sabia onde.
Pela primeira vez na vida, sentiu falta do carro blindado de Sérgio, pena que agora ele já pertencia a Clarice.
Os paparazzi do carro à frente eram totalmente surtados. Mesmo depois de provocarem um acidente daquele tamanho, em vez de se assustarem, dois deles desceram armados com as câmeras, disparando flashes ofuscantes na cara dela.
Júlia esticou as mãos trêmulas para travar as portas e as janelas.
Alcançou o celular; o sangue manchava a tela, deixando os toques grudentos e escorregadios.
Até mesmo naquele estado crítico, a primeira pessoa a quem Júlia quis pedir socorro foi o marido.
O telefone de Sérgio tocou uma única vez antes de ser recusado. Em seguida, uma mensagem apareceu:
[Eu e a Clarice estamos no hospital com a avó, qualquer coisa fala com o Éder.]
Na tela manchada de sangue, a mensagem Sérgio, tá doendo muito acabou sem ser enviada.
Júlia fechou os olhos. Havia um gosto doce e metálico se misturando às lágrimas. Com as mãos trêmulas, ligou para a empresária Patrícia.
Antes que a consciência escapasse, as dores espalhadas pelo corpo de Júlia foram intensificadas, junto com a imensa solidão que brotava do fundo da sua alma.
Ela viu. O fim da mariposa voando rumo à luz era apenas um: queimar-se até virar pó no abajur chamado casamento, sobrando nada mais que uma pilha de cinzas irreconhecíveis.
Só isso e nada mais.
Ao acordar, sentiu aquele cheiro ardido de álcool invadindo as narinas.
Patrícia se inclinou para perto da cama: — Acordou? Esse acidente me matou do coração!
Júlia ficou meio atordoada por um segundo, e então seu coração se aqueceu: — Um grande poeta disse que olhar com atenção alguém que ainda não tirou a maquiagem é uma tremenda crueldade.
Mal acabou de falar, ouviu a voz de um homem: — Eu discordo.
Se a garganta de Júlia não estivesse mais seca que um deserto, ela provavelmente teria engasgado ali mesmo.
— Lucas Franco, o que você tá fazendo aqui?
— Fui eu que chamei — explicou Patrícia: — Aqueles paparazzi são os mais carniceiros do mercado, se não fosse pelo Sr. Franco, você estaria no topo dos fofoqueiros da internet de novo.
Lucas estava com o tornozelo apoiado no joelho e segurava uma revista. Vestia roupas casuais, em uma pegada totalmente de estética assimétrica.
Se fosse outra pessoa usando aquilo, seria um show de horrores; com ele, parecia uma obra de arte alternativa.
Faziam anos que não se viam, e Lucas estava emanando um charme a meio caminho entre um universitário e um homem maduro.
Lucas e Júlia foram colegas de faculdade. A família Franco perdia em termos de capital para a Oceano, mas quando se tratava de poder sobre a indústria cultural e conexões de bastidores, eles eram ainda mais dominantes.

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