Naquele momento, Júlia sentia-se como alguém obrigado a visitar um parente num feriado, deparar-se com uma mesa cheia de comida ruim e, para piorar, achar um fio de cabelo no prato.
Resumindo, um nojo.
— Ei, tiazona — Clarice abriu um sorriso de falsa surpresa —, você não é aquela moça lá da empresa...?
Logo em seguida, fez uma cara de quem acabara de se dar conta de algo: — Desculpa, ouvi o segurança te chamar de senhora agora há pouco. Juro que te confundi com a prima mais velha da Tia Beatriz, aquela que já passou dos trinta, foi mal.
Júlia apenas observou a encenação em silêncio.
Três anos atrás, quando Sérgio assumiu a presidência, ele tinha apenas vinte e cinco anos, e ela era só dois anos mais nova que ele.
Não havia o menor motivo para a outra chamá-la de tiazona.
Foi de propósito.
— A culpa é do Sérgio, ele nunca posta fotos suas nas redes sociais, vive escondendo. É por isso que não te reconheci — Clarice deu um sorriso charmoso.
Vendo que Júlia não reagiu, ela continuou: — O meu pai foi aluno do avô do Sérgio. O Sérgio e eu crescemos juntos. Antes de falecer, o avô segurou a mão dele e pediu que ele cuidasse bem de mim. Se eu não tivesse ido estudar no exterior...
Júlia terminou de preencher o registro de visitas e largou a caneta.
A garota já havia estendido a mão com generosidade: — Olá, é a nossa primeira vez nos conhecendo. Sou Clarice Cardoso.
— Eu já vi a Senhorita Cardoso na internet, então não é exatamente a primeira vez — Júlia manteve o básico da cortesia, tocando apenas as pontas dos dedos dela.
— Ai, desculpa, Júlia, eu não sabia que você vinha com um carro... como esse. Eu deveria ter pedido pro motorista ir te buscar também — Clarice fixou os olhos no carro banal de Júlia, que beirava a mediocridade, com uma expressão cheia de pena.
— Não há de quê. Mas em tão pouco tempo, você já me pediu desculpas duas vezes — Júlia, que já ia passando direto, parou e olhou a garota de cima a baixo por alguns instantes.
Clarice a encarou fixamente.
— Se sabe pedir desculpas, significa que sabia como evitar.
A expressão de Clarice mudou na hora.
— E mais uma coisa, Senhorita Cardoso: você deveria me chamar de cunhada — completou Júlia.
Não era mentira; enquanto não se divorciasse de Sérgio, ela ainda figurava legalmente nos registros da família dele.
— O meu Volkswagen Phaeton realmente não chama tanta atenção, mas acredito que, se a pessoa tem medo de ser flagrada pela mídia, o ideal é agir com mais discrição — Júlia caminhou de volta ao próprio carro, batucando os dedos no teto metálico.
Dito isso, sem disposição para mais papo, bateu a porta, pisou no acelerador e foi embora.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Ame-me Outra Vez, Minha Ex!