Na infância, o pai a usou e a colocou numa situação que destruiu parte dela. Quando cresceu, fui eu quem se aproveitou de seus sentimentos. Não da mesma forma monstruosa que Jaziel, mas o bastante para usar o amor dela como se não valesse nada.
Jaqueline renunciou a muitas coisas por mim. Abandonou os estudos, não construiu uma carreira, não fez amigos, não viveu a juventude e, aos poucos, abriu mão até do amor-próprio.
E eu assisti a tudo sem enxergar. Quando percebi que nosso casamento havia se transformado numa prisão, poderia ter feito alguma coisa para mudar. Mas não fiz. Preferi puni-la emocionalmente, culpando-a por estar na minha vida quando fui eu mesmo quem a colocou nela.
Eu sabia que não tinha nenhum direito sobre Jack. Eu a perdi porque quis. Deixei que fosse embora porque fui covarde demais para me abrir para o futuro. Passei anos lamentando e chorando por um passado que já havia acabado, enquanto uma mulher de verdade morria lentamente ao meu lado.
Acho que, exceto por nossos filhos, todo o restante entre Jack e eu havia sido um erro. Um erro que talvez jamais pudesse ser completamente consertado, porque coisas remendadas nunca voltavam a ser iguais. E eu era a prova daquilo.
O ideal seria voltar no tempo, lá no começo. Claro que eu não poderia me envolver com Jack quando a conheci, porque ela ainda era uma menininha. Uma menina linda, de olhos escuros e assustados, que vivia me espionando pelos cantos e saía correndo sempre que nossos olhares se encontravam.
Quando ela cresceu, os olhos continuaram em mim. Mas passaram a me observar de uma maneira diferente. Já não era apenas admiração pelo namorado da prima. Era veneração. E eu, assim como todos ao redor, sabia que ela gostava de mim. Inclusive Brianna.
Por muitas vezes, impedi Brianna de falar com Jack ou confrontá-la. Ela dizia que a prima já não era mais criança e que precisava deixar claro que éramos namorados, que eu jamais ficaria com ela e que aquela paixão era ridícula.
Minha resposta era sempre a mesma: “Vai passar. É apenas um amor de adolescência.”
Eu sabia exatamente o que era um amor de adolescência porque vivia o meu com Brianna.
O que nunca percebi era que talvez o sentimento de Jack não fosse passar. E, depois de quinze anos, eu já não podia chamá-lo de uma paixão infantil. Ela me amou durante a infância, a adolescência, o casamento e o nascimento dos nossos filhos.

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