Hermínio provavelmente tinha feito hora extra e só voltou para casa ontem à noite.
Ao vê-lo, Florença não se deu ao trabalho de cumprimentá-lo. Ela seguiu diretamente para o lugar mais distante dele, tomando seu mingau em silêncio, enquanto mordia um pãozinho no vapor.
Hermínio lançou-lhe um olhar.
Naquele dia, Florença mais uma vez apareceu com sua maquiagem excêntrica, típica de um grupo alternativo. Os longos cabelos vermelhos pareciam obviamente artificiais, a base amarelada escondia completamente sua pele clara e a maquiagem esfumada em tons de roxo e preto cobria o delineado natural e delicado dos olhos, tornando impossível reconhecer sua aparência original.
Maquiagem inversa.
Florença dominava essa arte.
Hermínio não deu importância, acreditando que ela apenas buscava atrair a atenção da família de uma forma extravagante, tentando desviar o foco que todos depositavam em Gisele.
Contudo, humanos são seres emocionais, e Gisele convivia com aquela família há dezessete anos. Esse laço era algo que Florença jamais conseguiria roubar.
Hermínio esperava que Florença compreendesse isso e pudesse se dar bem com Gisele.
Se Florença tratasse Gisele como uma irmã de verdade, ele também não teria problema em tratá-la como tal.
Lembrando-se do que o motorista Ruan dissera há pouco, ele perguntou:
“Por que vai ao hospital hoje?”
Aquela era a primeira vez que Hermínio tomava a iniciativa de falar com ela. Florença respondeu com indiferença:
“Vacinação.”
Na verdade, os genes da família Braga eram realmente bons. Hermínio, Iago, Gonçalo e Alvito, cada um deles tinha aparência que se destacava entre milhares.
Hermínio era frio e sóbrio, Iago tinha um charme amável, Gonçalo parecia um astro do entretenimento e Alvito era rebelde e chamativo.
Qualquer pessoa teria dificuldade em não se aproximar de irmãos assim.
Florença já fora assim antes. Para ela, todos eram excelentes; era natural querer se aproximar, aprender, como uma fã que idolatrava seus ídolos.
Mas agora...
Florença já enxergava além das aparências e percebia o favoritismo e o egoísmo por trás daqueles “homens de alta qualidade”. Ela não tinha mais nenhum interesse por eles.
“Por que vacinação?” Hermínio insistiu.
Naquela vez, após o relato de Florença, ele sabia apenas que Alvito a tinha deixado em Rio Verde Azul, mas não sabia que o ferimento em sua mão era de uma mordida de animal.
Florença respondeu com o olhar sereno:
“Fui mordida por um cão feroz.”
Hermínio sentiu um leve sobressalto no íntimo.
Ele não sabia desse detalhe.
Uma garota havia sido largada numa serra deserta à noite, e ainda por cima atacada por um animal...
Ele, sem querer, imaginou a cena e franziu o cenho pouco a pouco.
Apesar de não gostar de Florença, não significava que aprovasse o comportamento de Alvito.
Hermínio abriu a boca e disse em tom grave:
“Florença, vou falar com Alvito...”
“Não precisa se incomodar, senhor.” Florença o interrompeu sem dar importância. “Isso é entre mim e Alvito.”
Ao terminar, ela sequer olhou para ele, largou a tigela e os talheres e saiu do refeitório.
Hermínio ficou surpreso, observando o lugar vazio diante de si, franzindo ainda mais a testa.
Não precisa se incomodar, senhor?
Ela parecia muito distante.
Hermínio se sentiu inquieto sem saber por quê.
Nesse momento, viu Alvito entrando, ainda sonolento. Hermínio o encarou e questionou:

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Abandonada pela Família, Salva pelo Amante