"Érick"
As palavras confiantes da governanta foram disparadas contra mim como uma saraivada de tiros. Eu havia colocado o inimigo na minha própria casa e agora teria que lutar contra ele. Eu encarei a Adelaide, eu estava praticamente rosnando. Eu queria arrancar a cabeça dela.
- EU NÃO POSSO FAZER NADA? COMO VOCÊ OUSA? DENTRO DA MINHA CASA? - Eu gritei na cara dela. - Você está aqui porque a Victória é outra cobra manipuladora da qual eu estou me livrando, mas quem paga o seu salário sou eu! Então, Adelaide, eu posso e vou te colocar para fora. Suma da minha casa em dez minutos, Adelaide, ou eu mesmo esqueço os meus princípios e te arrasto pelos cabelos até a calçada! Saia!
A governanta desabou em tremores, dando passos vacilantes para o lado em direção ao corredor de serviço, totalmente chocada com a minha explosão de fúria.
Mas o som dos meus gritos na sala de jantar foi interrompido pelo ruído ríspido de saltos altos batendo contra os degraus da escada e passos apressados vindos do corredor de serviço. Eu olhei para a porta do corredor e vi o Alberto entrando apressado. Girei os calcanhares lentamente, minha respiração acelerada como o meu pulso, tamanha a raiva que me consumia. Atrás de mim, a Victória entrava num rompante na sala de jantar, a máscara de calma e compreensão rachada e os olhos injetados de raiva que eu duvidava que pudesse ser maior que a minha.
Eu mantinha os meus olhos fixos na Victória, a mulher que eu não fazia ideia de quem realmente era. O meu peito subindo e descendo rápido enquanto a adrenalina ainda queimava nas minhas veias. A minha fúria era real, mas a ganância que transparecia em seus traços me dava asco. Eu não estava nem aí que legalmente aquela mulher fosse minha esposa, ela sairia junto com a Adelaide, eu colocaria todos os demônios para fora da minha casa.
- Alberto. - Eu chamei sem desviar a atenção da mulher vestida de bege na minha frente, a minha voz saindo num tom frio. - Acompanhe a Adelaide até o quarto, pegue as malas dela e coloque essa traidora para fora do meu portão agora mesmo. Você já foi expulsa uma vez, Adelaide, sabe como funciona, passe na holding amanhã para assinar os papéis.
- Sim, senhor. - O Alberto respondeu de imediato, a postura profissional impecável. Ele indicou a porta para a Adelaide, que ainda tremia encolhida contra a parede.
- Você não pode fazer isso, Érick! Ela é minha funcionária. - A Victória falou irritada.
- Ah, enquanto eu pago o salário dela e ela está na minha casa, eu posso fazer o que eu quiser. Mas não se preocupe, Victória, você também está de saída e vai poder acolher a sua empregada sob o teto do seu apartamento e pagar o salário dela. Bem longe de mim!
A porta bateu depois que o Alberto levou a Adelaide para fora. O silêncio que desabou sala de jantar foi mortal. Ficamos apenas A victória e eu nos encarando, duas forças em colisão.
A Victória deu dois passos firmes em direção a mim, e jogou um calhamaço de papéis em cima da mesa de café da manhã com um baque violento. Era a notificação prévia do divórcio litigioso que o advogado havia preparado sob a supervisão do Andrey.
Por um segundo eu travei, mas um retrospecto rápido me fez rir daquela tentativa desesperada que ela fazia para me dissuadir.
- Grávida? - Eu repeti a palavra com um escárnio agudo, o tom cínico claro na minha voz. - Essa é a sua última mentira amadora, Victória? O seu repertório de golpes decaiu tanto assim? Vamos lá, esposa... nós estamos casados há pouco mais de trinta dias, dos quais eu nao te toquei em nenhum deles. Eu passei as últimas semanas trabalhando até tarde para não compartilhar a cama com você. E antes disso, e em todas as raríssimas vezes em que nós... tivemos alguma intimidade, eu usei proteção. Eu nunca transei com você sem preservativo. A sua farsa é ridícula.
A Victória soltou uma gargalhada alta e histérica que ecoou pelas paredes da sala de jantar. Ela me encarou com os olhos brilhando de pura maldade.
- Preservativos podem ser furados, Albelini! Com um simples alfinete e você nunca percebeu. - Ela disparou a frase letal, arrancando de mim todas as certezas e o meu sorriso de triunfo. - Eu fiz exatamente o que precisava ser feito antes de nos casarmos, meu querido. Você confiava em mim, deixava a sua carteira por perto, eu tive oportunidade e furei cada preservativo que você usou comigo. Realmente não foram muitas e o fato do grande Albelini ser um amante menos que mediano foi decepcionante. Mas, serviu ao propósito. Érick, eu garanti o seu herdeiro e blindei os meus direitos financeiros!
- Você vale menos que nada, cobra traiçoeira! - Eu sibilei.
- E você colocou a cobra para dentro do seu castelo. Agora vai ter que engolir, Albelini, e viver comigo para o resto da sua vida! - Ela deu uma gargalhada odiosa, que fez o meu sangue congelar nas veias.

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