"Érick"
Depois de sair da boate, eu peguei outro taxi para voltar para casa e quando eu estava diante da porta, prestes a abrí-la, eu percebi que não queria estar ali, não enquanto não arrumasse toda a bagunça que fiz, não enquanto a minha filha e a mulher da minha vida não estivessem de volta. Mas eu estava cansado demais para ir a outro lugar, então eu me lembrei de um lugar naquela casa onde talvez eu encontrasse um pouco de paz.
Eu cruzei o hall de entrada na escuridão, em silêncio absoluto, mantendo os passos leves para não ser ouvido por ninguém. No meu escritório, eu abri o cofre e resgatei de lá a chave para o lugar onde eu poderia sentir a Lorena... ou pelo menos o seu perfume. Depois eu marchei direto para o corredor dos fundos, a ala dos funcionários, empurrei a porta de madeira simples e me tranquei no antigo quarto de funcionária da Lorena, o lugar em que ela foi minha sem dirfarces pela primeira vez e virou o meu mundo de cabeça para baixo.
Eu olhei em volta, ali ainda tinha o cheiro dela. Eu abri o armário embutido e o meu coração pulou uma batida. Lá dentro, perfeitamente dobrados e intactos, estavam todos os vestidos caros, as joias e os sapatos de grife que eu havia comprado para ela e que ela fez questão de recusar. Eu passei as mãos pelas roupas e no fundo, no último cabide, eu encontrei o vestido azul que eu transformei no seu uniforme quando ela chegou, me lembrando de quando a beijei pela primeira vez no meu escritório e do quanto eu queria aquela mulher.
Eu fui até a pentedeira no canto, seu perfume estava lá e eu o borrifei no ar... coco e açúcar mascavo, doce, quente, convidativo. Um soluço abafado escapou pela minha garganta. Eu me sentei na borda da cama onde eu me declarei dela, o peito subindo e descendo rápido de pura exaustão e uma ansiedade que não me deixava. Ela não queria o meu dinheiro, ela só queria o meu respeito e o meu amor, e eu havia sido um idiota cego. Eu me agarrei as mentiras da Adelaide e me fechei, porque sempre foi mais seguro não deixar ninguém entrar.
Eu passei a madrugada inteira em claro, deitado naquela cama, com o vestido azul apertado contra o peito, sentindo o cheiro doce dela que parecia impregnado nas paredes daquele quarto, mas estava mais presente agora que eu o havia borrifado no ar. As descobertas da noite anterior, o enfrentamento com aquela cópia mal feita, haviam estraçalhado a minha sanidade por completo. Eu havia destruído a mulher que eu amava por causa de uma armação barata. O remorso me consumia de forma física, uma dor irradiando pelo meu tórax que me tirava o ar. Mas no escuro daquele quarto de serviço, eu jurei para mim mesmo que arrumaria a minha bagunça e traria a minha fada de volta.
Às sete horas da manhã, eu estava de pé. Ajeitei o colarinho do terno amassado sem me dar ao trabalho de pentear o cabelo e abri a porta para o corredor, mas tive o cuidado de trancá-la outra vez atrás de mim. Marchei a passos rápidos, determinados e estrondosos direto para a sala de jantar.Eu expulsaria o primeiro demônio da minha casa.
A Adelaide estava de pé conferindo a mesa de café da manhã, com o seu ar presunçoso, o coque severo e o vestido escuro de governanta alinhados milimetricamente. Ela ergueu os olhos, esboçando aquele sorriso desafiador de quem achava que ainda estava no controle da situação.
- Bom dia, Sr. Albelini. O café da manhã já está pronto e a Sra. Victória... - Ela começou a tagarelar, mas se calou enquanto eu me aproximava com os olhos carregados de fúria.
Eu parei a apenas um passo de distância, com o olhar mais ameaçador que eu já direcionei a alguém na vida.
- DECÊNCIA? VOCÊ QUER FALAR DE DECÊNCIA, SUA TRAIDORA MENTIROSA? - Eu gritei. - Quer saber, Adelaide, eu sei muito bem de quem partiu a ideia de fabricar as provas. partiu de você! Porque um detetivezinho medíocre não teria pensado em levar aquela farsante em um estúdio de fotografia, tampouco teria forjado documentos com tamanha perfeição. Já você, Adelaide, com toda a sua frieza, ordem e me conhecendo como conhece, sabia que eu não acreditaria em qualquer coisa. Foi sua a ideia de forjar as provas, não foi?
A Adelaide se encolheu contra a parede, as mãos trêmulas espalmadas na parede branca, as pupilas dilatando de puro pânico ao ver que eu estava arrancando a sua máscara, furioso.
- S-Sr. Albelini... eu fiz pela honra do seu sobrenome... aquela Lorena... aquela mulher não era uma herdeira... ela trabalhava naquela antro de perdição. Ela não é melhor do que o que eu fiz o senhor enxergar. É uma qualquer... - Ela gaguejou tentando se defender, o elitismo impregnado em sua mentalidade subserviente antiquada, mas eu bati a mão na parede ao lado da sua cabeça com um estrondo violento que a fez estremecer.
- Você não vai pronunciar o nome da Lorena com essa boca imunda! - Eu vociferei, a fúria primitiva explodindo de vez. Eu tinha atingido um ponto que não conseguia mais me conter. - Você é uma cobra venenosa que abusou da confiança da minha família por décadas! Você está demitida por justa causa neste momento e banida desta casa e da minha família para sempre!
- O senhor não pode me demitir. - Um sorriso confiante surgiu no rosto dela. - Eu sou funcionária da sua esposa. Ela me trouxe de volta e, acredite, ela não vai me dispensar. O senhor não pode fazer nada!

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