Qualquer pessoa desavisada provavelmente pensaria que se tratava de um marido que flagrara a traição da esposa, interrogando-a naquele momento sobre a sua cruel infidelidade.
Mas, entre os dois, quem havia traído quem, afinal? E quem havia abandonado quem?
Ela deu um sorriso frio:
— Cunhado, você não vai para casa ficar com sua esposa e filha depois do trabalho; veio me procurar para brigar?
Nesse exato momento, a porta da sala privada foi aberta. Era o garçom, trazendo os pratos. Ao perceber a tensão no ambiente, ele ficou constrangido, sem saber se entrava ou recuava.
Gustavo Guimarães soltou-a e sentou-se, massageando a testa pesada com uma das mãos e com os lábios finos firmemente apertados.
Sabrina Silva hesitou por um instante e voltou a sentar-se.
O garçom entrou e serviu os pratos, colocando-os um por um na mesa. Seu olhar furtivo captou a expressão fechada dos dois; uma invisível tensão no ar parecia a fumaça de um campo de batalha.
Após a saída do garçom, a atmosfera opressora da sala tornava quase impossível respirar, e ambos permaneceram em silêncio.
Após minutos de quietude, Sabrina Silva pegou os talheres e começou a comer. Mesmo de mau humor, aquilo não afetava seu apetite.
Afinal, aquela era a hora do jantar. Assim que terminassem, cada um iria para sua casa, e aquela refeição selaria o adeus definitivo deles.
Hoje, ao sair daquela sala, todo aquele passado seria sepultado nas profundezas de seu coração e nunca mais seria mencionado.
Gustavo Guimarães tirou o maço de cigarros do bolso, colocou um entre os lábios e segurou o isqueiro, mas não o acendeu. Seus olhos escuros pareciam carregados de preocupações.
Sabrina Silva comeu um pouco e puxou um lenço para limpar a boca:
— Já estou satisfeita.
Do início ao fim, Gustavo Guimarães nem sequer tocou nos talheres. Estava perdido em pensamentos, mas ao ouvi-la, seus olhos sombrios voltaram-se lentamente para ela. Depois, passou o olhar pela comida na mesa e, percebendo que ela quase não comera, franziu levemente a testa.
Ele moveu os lábios, mas não disse nada. Pegou as chaves do carro, levantou-se, retirou o paletó do cabide e pendurou-o no braço dobrado:
— Vamos.
Sabrina Silva estava prestes a comentar que ele não havia comido nada, mas conteve-se, repreendendo a si mesma por intrometer-se. Com uma esposa virtuosa em casa, talvez ele achasse a comida de fora insossa.
Os dois saíram da sala, um após o outro. Do lado de fora, havia um garçom de prontidão, e Gustavo Guimarães olhou de soslaio para ele:
— Coloque na conta.

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