Depois de exatos vinte açoites, Otília, já exausta, jogou o chicote no chão de qualquer jeito.
Em seguida, agachou-se, ergueu o rosto de Elisa com lentidão e, com as mãos, limpou-lhe as lágrimas suavemente. Os olhos dela transbordavam ternura.
— Como você é linda, Elisa. Sabe o quão deslumbrante você era naquela época?
— Desde o momento em que a vi pela primeira vez, eu me encantei por você. Por isso, mesmo você vindo de um meio tão humilde, decidi me tornar sua amiga.
— Eu lhe entreguei todo o meu coração. Então por que você me traiu?
— Eu rompi com a minha família por sua causa, e você me apunhalou pelas costas, envolvendo-se com o meu noivo.
— Elisa, como pôde fazer isso comigo? Como pôde?
Do começo ao fim, o tom de Otília permaneceu tranquilo, sem qualquer sinal de histeria.
Era apenas um relato sereno.
Mas Elisa tremia da cabeça aos pés, tomada pelo pavor.
Ela percebeu que Otília começava a demonstrar os sintomas dos seus surtos.
De tempos em tempos, Otília fazia as mesmas perguntas. E quanto mais calma soava durante o interrogatório, pior era a dor que infligia depois.
E não foi diferente: seguiram-se vários tapas, deixando marcas avermelhadas no rosto pálido de Elisa.
Ainda assim, Elisa não se atreveu a soltar um único gemido, tampouco tentou se esquivar.
Otília se levantou.
— Não me culpe. O seu filho passou de todos os limites. Por causa de uma mulher, ele quase cegou o Kelton.
— Eu esperava que você o impedisse, mas você não fez nada. Elisa, estou muito decepcionada.
De cabeça baixa, Elisa não ousou responder; restava-lhe apenas aguardar que o tempo corresse.
Meia hora depois, Elisa saiu do quarto, caminhando com extrema dificuldade, apoiando-se na parede.
A dor pelo corpo todo era insuportável.
Naquele exato momento, Ezequiel vinha em sua direção. Ao vê-la naquele estado, um lampejo de preocupação cruzou os olhos dele.
Ele a tomou nos braços e a carregou rumo ao quarto deles.
— Vou aplicar remédio nos seus ferimentos. Você sofreu demais.
Elisa balançou a cabeça, envolveu o pescoço de Ezequiel com os braços, enterrou o rosto no peito do homem e chorou sem fazer barulho.
Quando alcançaram o final do corredor, Otília saiu do próprio quarto.
Clarice lançou um olhar para o rosto de Vânia, contorcido pelas emoções, e sorriu com os lábios cerrados.
Ela ajustou o próprio vestido.
— Minha querida irmãzinha, não me disse que o pai e a Tia Talita mal podiam esperar para me ver? Não vamos entrar?
Vânia devolveu-lhe um olhar gelado; o sorriso inocente e amigável já havia desaparecido por completo.
— Será que depois de tantos anos longe de casa você perdeu o juízo? Eu a chamo de irmã e você realmente se acha importante?
— O pai e a mãe não queriam ver você de forma alguma. Já que despachou o Erasmo, fique à vontade para se virar sozinha!
Furiosa, Vânia virou-se em direção à casa, e, naquele instante, o portão da propriedade se abriu.
Clarice deu um sorriso de canto. Imaginava quanto tempo mais Vânia conseguiria manter aquela fachada.
E, pelo visto, não conseguiu durar nem uma única noite.
Clarice não se importava com as provocações de Vânia. Já que haviam feito questão de convidá-la de volta, forçá-la a ir embora voluntariamente não seria uma tarefa tão fácil.
Clarice soltou uma risada suave.
— Minha querida irmã, nunca ouviu aquele ditado? É fácil convidar alguém, difícil mesmo é se livrar da pessoa depois.

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