Erick Lino lançou um olhar fulminante para a enfermeira que falara demais.
A colega dela puxou discretamente o braço da primeira, querendo impedir que continuasse, por medo de provocar aquele sujeito conhecido por ser protegido do chefe da delegacia.
Calel Guerrero voltou para o lugar onde estava antes. Ali, sobre um balcão, havia uma câmera de registro policial, com a lente voltada para eles e ligada.
Ele se aproximou, desligou o aparelho e o pegou nas mãos.
Antônia Lino não era ingênua; entendeu tudo quase imediatamente.
— Você... Você gravou tudo o que acabou de acontecer?
Ayla Carvalho sentiu o coração disparar de nervosismo.
Os outros também olharam para Calel Guerrero, surpresos.
Com uma expressão serena, Calel Guerrero assentiu.
— Sim. Gravei tudo. Cada palavra e atitude de vocês, inclusive a voz da Oficial Carvalho.
O rosto de Ayla Carvalho empalideceu. Tentando manter o controle, rebateu:
— Mas você não avisou antes. Isso é contra as normas, e pode sofrer uma punição grave!
Calel Guerrero deu de ombros.
— Estou quase perdendo o emprego, acha mesmo que vou me preocupar com punição?
Ayla Carvalho ficou sem palavras, atônita e sem reação.
— O que você quer, afinal? — perguntou Erick Lino, num tom sombrio.
vovó Lino, percebendo a gravidade da situação, lançou um olhar à sua empregada, sinalizando para que tentasse pegar o aparelho das mãos de Calel Guerrero. A senhora captou a mensagem, mas, vendo o porte atlético de Calel Guerrero — devia ter uns um metro e oitenta e cinco —, não teve coragem de enfrentar alguém tão forte.
Calel Guerrero olhou de relance para Erick Lino, depois voltou-se para o aparelho em sua mão.
— Se você vier comigo, de boa vontade, até a delegacia para prestar depoimento, isso aqui não vai ser usado contra você.
Ayla Carvalho, completamente desnorteada, saiu apressada do quarto, segurando o telefone, para ligar novamente para seu irmão.
Calel Guerrero não a impediu. Estava certo de que, ao voltar, ela tentaria convencer Erick Lino a ir com ele até a delegacia.
E, na disputa de “tios influentes”, será que Erick Lino conseguiria vencer o tio dele, que era general? Ele só não usava esse tipo de recurso por princípio, não por falta de meios.
A admiração das duas enfermeiras quase transbordava.
*
Na delegacia.
Amanda Teixeira e Maia Lopes já haviam prestado depoimento. Maia, na verdade, já poderia ter ido embora, mas ficou, preocupada com Amanda e esperando o desfecho.
Durante o interrogatório, o policial que questionava Amanda teve que sair por uns minutos. Quando voltou, sua atitude estava diferente: menos hostil, sem tentar induzir respostas.
Amanda imaginou o motivo da mudança.
Na vida passada, quando conheceu o policial Calel Guerrero, ele já era chefe da equipe de investigação, conhecido por desvendar casos difíceis.
Na verdade, Amanda só conheceu Calel Guerrero por causa de Antônio Gomes. O pai de Antônio era tio de Calel, e Calel era primo de Antônio.
Desta vez, o encontro dos dois aconteceu quase quatro anos antes do que na vida anterior. Agora, Calel ainda era apenas um policial de bairro, mas seu caráter certamente não mudara: justo e implacável contra a injustiça, como sempre fora.

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