VICTOR BALTIMOR.
Então eu estava certo. Aquela infeliz não agiu sozinha. Charlotte e Afonso. Unidos. Por que não estou surpreso?
A constatação não veio como surpresa, mas como confirmação de algo que já fervia dentro de mim. Meu maxilar se contraiu, e senti aquela fúria fria, calculada, tomar conta de cada centímetro do meu corpo. Não era um acesso de raiva descontrolada. Era pior. Era a decisão silenciosa de destruir, peça por peça, todos os envolvidos.
— Agora faz sentido — murmurei, olhando para frente enquanto o automóvel seguia. — Eles acharam que poderiam brincar comigo?
Pablo permaneceu em silêncio por alguns segundos, respeitando o peso daquele momento.
— Pablo — falei, por fim, sem tirar os olhos da estrada. — Quero tudo o que chegou naquela casa recolhido. Caixa, flores, papel, fita, tudo. Qualquer fragmento. Quero perícia completa.
— Já dei a ordem — respondeu. — A equipe já coletou tudo.
— Quero provas concretas — continuei. — Preciso saber quem fez o quê. Se foi Charlotte, se foi Afonso ou se ambos trabalharam juntos. Não quero suposições.
— Entendido, senhor.
Respirei fundo.
— Coloque alguém na cola do Afonso. Vinte e quatro horas. Quero saber com quem ele fala, onde vai, quem entra e quem sai da vida dele.
— Já estou providenciando.
— E arrume alguém para ficar de olho na Charlotte dentro da prisão. Alguém nosso. E outro para vigiar o pai dela. Artur não vai mover uma peça sem eu saber.
Pablo assentiu, sério.
— Eles mexeram com a pessoa errada — finalizei. — E vão pagar por isso.
As semanas seguintes passaram como um borrão. Eu estava em campanha eleitoral, cruzando o Canadá quase sem perceber. Um dia em Montreal, no outro em Regina, depois Vancouver, Calgary, Edmonton, entre outras. Discursos, reuniões, eventos, apertos de mão, sorrisos calculados. O país me via firme, seguro, confiante. Ninguém imaginava a guerra que eu travava por dentro.
Eu falava sobre futuro, estabilidade, família. E pensava apenas em Elisa, em Melissa… na nossa família.
Charlotte ficou quieta nessas duas semanas. Quietude demais. E eu sabia: aquilo não era arrependimento. Era estratégia, eu conhecia ela, Charlotte estava aprontando.
— Temos novidades — disse Pablo, na noite que estávamos em Quebec, quando eu acabava de chegar ao hotel, exausto.
— Fale.
— Encontramos duas digitais no pacote.
Meu corpo inteiro ficou atento.
— De quem?
— De Charlotte e de Afonso. Tudo indica que agiram juntos. Foi encontrado digital de Charlotte no bilhete. E de Afonso na caixa do rato e o buquê.
Fechei os olhos por um instante.

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