Gregório
O nome dela ecoava na minha cabeça desde o momento em que a vi naquela cozinha, sentada no chão, com o rosto inchado de tanto chorar e a tigela de massa crua escorrendo pelos dedos.
Ava.
Fraca, mas não fraca como o mundo chama. Fraca como um animal ferido, tentando manter a dignidade enquanto sangra. Ela se odeia. Não por vaidade, mas por algo mais fundo, mais antigo, mais violento. E eu... eu não sei lidar com isso. Se fosse um inimigo, eu já teria arrancado a verdade à força. Se fosse uma dívida, eu já teria cobrado com juros. Mas quando se trata dela… eu fico sem armas.
Depois da noite que montei aquele jardim no terraço e vi seus olhos brilharem pela primeira vez, soube que eu não poderia só protegê-la por fora. Ela tava sendo devorada por dentro. Então, na manhã seguinte, fui até um lugar onde jamais imaginei que colocaria os pés: um consultório particular em Manhattan. Discreto, longe do centro. Recomendado por alguém que me devia um favor — e que sabia guardar a boca fechada.
O lugar era limpo, organizado demais. Tinha cheiro de lavanda, cadeiras com almofadas e livros de autoajuda em uma estante com planta falsa. Sentei no sofá. Me senti ridículo.
Mas ela entrou.
Dra. Camilla Sorrentino. Psicóloga clínica. Especialista em compulsão, autoestima, traumas e... mulheres quebradas. Ela pareceu me reconhecer de imediato. Não pelo nome, porque eu ainda não tinha me apresentado. Mas pelos olhos? Esses todo mundo conhece. Ela não tremeu. Ponto pra ela.
— Em que posso ajudar, senhor…?
— Hackman.
Ela engoliu seco, mas manteve a postura.
— Muito bem, senhor Hackman. Vamos falar sobre... sua necessidade?
Cruzei as pernas. Soltei o ar com peso. Não era fácil dizer isso em voz alta.
— Tenho uma mulher na minha casa. Não é minha esposa. Não é... nada meu oficialmente. Mas eu cuido dela. E ela está... afundando.
— Em quê?
— Comida.
Ela abriu um caderno. Anotou.
— É compulsão alimentar?
— Eu não sei. Só sei que ela come quando sente dor. Quando chora. Quando se olha no espelho como se fosse um castigo existir. E depois, ela se odeia mais.
— Isso é comum entre vítimas de abandono afetivo. Ela sofreu algo recente?
Assenti.
— Foi deixada no altar. O noivo roubou tudo dela. O apartamento, as contas, os sonhos. Eu a encontrei… naquele dia. Vestida de noiva. Bêbada num bar. Chorando. E, por alguma razão que eu mesmo não entendo, eu trouxe ela pra minha casa.
A psicóloga me olhava com cuidado. Profissional. Mas não com medo.
— E desde então...?
— Ela tem altos e baixos. Às vezes, parece sorrir. Mas sempre volta pra dor. Como se estivesse condenada a repetir o sofrimento. E eu não sei o que mais aconteceu com ela. Eu sei que tem mais. Eu sinto.
— Ela já falou com você sobre a infância? Família? Gravidez, aborto, perdas...?
— Não.
— Então provavelmente está guardando algo maior. Algum trauma de origem que se ligou ao abandono.
— E como eu ajudo?
— Você já está ajudando. Mas não basta proteger de fora. Se ela não tratar o que tá corroendo por dentro… ela vai afundar com ou sem você.
— Você pode tratar?

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