Anastasia
O silêncio no carro não era comum. Marcelo sempre falava algo, um comentário sobre o evento, uma crítica sobre a comida, uma ironia sobre algum figurão. Mas naquela noite... ele estava quieto.
E isso me irritava.
Mantive os olhos fixos na janela do carro enquanto os prédios de Manhattan passavam por nós como vultos. Minha mão descansava sobre a coxa dele, como sempre. Mas ele não reagia. Nem sequer um movimento sutil. O olhar dele permanecia perdido, longe de mim.
Ela tinha chamado a atenção dele.
E o pior... é que eu sentia isso desde o primeiro instante.
Scarlett.
Eu a reconheci assim que entrou no salão. Scarlett Campbell. A mesma mulher que havia tentado se aproximar de mim no salão de beleza. Guardei o vestido, o sorriso, o perfume. A presença. Era impossível não notar. Ela não era só bonita, havia algo nela que gritava perigo. Que acendia todos os meus alarmes internos.
Ela não era qualquer uma.
Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
E estava mirando direto em Marcelo.
Assim que entramos no nosso apartamento, me livrei dos saltos com força demais, largando-os no canto. Marcelo afrouxou a gravata com a mesma calma de sempre, tirando o paletó e jogando sobre a poltrona.
— Quem era aquela mulher?
Marcelo me olhou por alguns segundos, como se tivesse que fazer um esforço para sair dos próprios pensamentos.
— Qual delas?
— A de vestido preto. Fenda na coxa. Sorriso de cobra.
Ele arqueou uma sobrancelha, um canto da boca quase ameaçou um sorriso. Quase.
— Não faço ideia.
— Mentira.
— Não sei quem é. Mas sim… eu vi ela.
Eu sabia o nome que ela tinha me dado no salão de beleza. Mas alguma coisa me dizia que Scarlett Campbell não era toda a verdade. Preferi não mencionar nosso encontro ainda. Queria descobrir o quanto Marcelo sabia sobre aquela mulher.
— Ela te viu também. E fez questão disso.
Marcelo não respondeu.
E foi esse silêncio que me doeu mais do que qualquer palavra. Porque não era silêncio de ignorância. Era silêncio de alerta.
Ele também percebeu.

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