Ava
Eu já havia chorado muitas vezes desde que entrei naquela casa. No banheiro. Na varanda. Na cozinha, comendo escondido. No travesseiro, quando o silêncio me engolia. Mas nenhuma lágrima se comparava à que descia agora.
Gregório me olhava em silêncio. Eu estava sentada na beirada da cama, com as mãos trêmulas no colo. A sessão com a Camilla ainda pesava dentro do meu peito. Ainda doía. Mas pela primeira vez… a dor estava tentando sair. E ele sabia. Sabia que eu ia contar. Estava me dando espaço pra respirar, pra não fugir. E eu não queria fugir. Não mais.
— Eu era bonita — comecei.
A voz saiu baixa, quase irreconhecível.
— Não que eu fosse perfeita, não que chamasse atenção como aquelas mulheres que você vê e para tudo. Mas eu era bonita. Tinha vaidade. Me arrumava, me olhava no espelho e sorria. Me sentia… viva.
Gregório ficou em silêncio. Seu olhar não me julgava. Era firme. Presente.
Continuei.
— Quando conheci o Brian, ele me dizia que eu era a mulher dos sonhos dele. Que nunca tinha visto um sorriso como o meu, que a minha risada era a música favorita dele… E eu acreditei.
Engoli seco.
— Eu engravidei dois meses depois do noivado. Não foi planejado, mas eu senti que tinha acontecido algo divino. Eu… me transformei. Comecei a ver tudo de forma diferente. Planejava o quarto, os nomes. E ele? No começo parecia animado. Dizia que nosso bebê seria lindo como eu.
Uma pausa longa. Tão longa que achei que não conseguiria continuar. Mas continuei.
— Um dia comecei a sangrar. Fui pro hospital. Estava sozinha. Ele disse que tinha uma reunião importante. Mas no fundo… ele já sabia. Já sentia. Quando a médica disse “não tem mais batimentos”, eu… eu morri também. Por dentro. Acabou ali.
As lágrimas escorriam silenciosas.
— Voltei pra casa e ele mal olhou pra mim. Não falou mais do bebê. Nunca mais me abraçou do mesmo jeito. Começou a sair mais. E eu… comecei a comer.
Solucei. A primeira vez em voz alta.
— Era o único jeito de calar aquilo. O choro. O medo. O vazio. A culpa. Eu comia à noite, escondida, depois chorava abraçada com um pacote de biscoito como se fosse um travesseiro. Comecei a engordar. Primeiro devagar. Depois perdi o controle. As roupas não serviam mais. Meu corpo doía. Eu odiava me olhar no espelho.
Gregório se aproximou. Sentou ao meu lado. Eu não consegui encarar ele. Só continuei.

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