Como se desafiasse Owen diretamente, Yunice disse, friamente: “Você não sabe contar ou só é surdo? Eu disse cem tapas. Ainda faltam setenta e seis.”
“Yunice!” Os olhos dele arderam de raiva quando gritou. Sua voz tremia de mágoa, como se a acusasse de ser cruel.
Eles eram a família mais próxima dela.
Yunice, olhando para os próprios dedos enquanto brincava com eles, respondeu com frieza: “Setenta e seis. Nem um a menos.”
Em sua mente passaram todas as vezes em que Lily a ignorou, falou mal dela, escolheu os outros em vez dela.
Ela se lembrou de Owen mandando-a para o hospital psiquiátrico, de como se agarrou à cerca elétrica, implorando para que ele não a deixasse ali enquanto a corrente atravessava seu corpo.
Ele hesitou naquela hora?
Quando salvou Elsie do incêndio e a deixou para trás... Arrependeu-se?
Quando a atropelou com o carro... Vacilou?
Quando ela foi trancada na clínica contra a própria vontade... Ele sentiu ao menos um pingo de culpa?
Não. Nem uma vez.
Então ela também não iria amolecer. Sem misericórdia.
De repente, um grito rasgou o ar vindo da cozinha, a voz de Elsie, e então silêncio.
Owen e Lily ficaram paralisados de medo. Ele se levantou num salto.
Sem pensar, avançou, pronto para empurrar Yunice para o lado. Achou que ela sairia do caminho.
Mas ela não saiu. Ficou ali, imóvel, como se o desafiasse.
Owen parou abruptamente, seus olhos se fixando nos dela.
Ela sustentou o olhar com calma, sua pequena estatura irradiando uma força impenetrável.
Mesmo que ele pudesse lançá-la para longe com um braço só.
Seus punhos se fecharam até os nós dos dedos estalarem. O corpo inteiro tremia de raiva e frustração. Mas, depois de longos segundos, conteve-se e não encostou nela.
Em vez disso, levantou as duas mãos, alternando esquerda e direita, dando em si mesmo quarenta tapas de cada lado.
Quando terminou, seu rosto estava inchado e marcado por impressões vermelhas arroxeadas. Fuzilando Yunice com ódio, perguntou: “Isso basta?”
Ela baixou os olhos e lentamente deu um passo para o lado, abrindo caminho para a cozinha.
Owen passou por ela furioso, mas a raiva apenas se aprofundou. Virou-se, apontou a mão trêmula para ela e gritou: “Você não é minha irmã. Nunca mais pise na casa dos Saunders!”
Yunice sustentou seu olhar, imperturbável. Nem um traço de medo em seu rosto.
A fúria dele só aumentou ao se chocar com a indiferença dela.
Ele foi até a porta da cozinha e a chutou, abrindo-a.
Lily se levantou às pressas do chão e correu atrás dele.

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