Yunice estava claramente brincando, mas o nariz de Gill ainda ardia, e as lágrimas ameaçavam cair antes que pudesse segurá-las.
Virando para limpar os olhos, xingou baixinho: “Owen é mesmo um canalha. Em todos esses três anos, se tivesse se dado ao trabalho de te visitar uma vez, você não teria sofrido tanto. O que aconteceu com ele hoje? Mereceu cada pedaço!”
Como se lembrasse de algo, acrescentou: “A propósito, quando ele foi internado, vi o diretor do Hospital Saunders o procurando. A cara dele estava horrível. Não sei se deu algum outro problema.”
A jovem respondeu sem emoção: “Quinton cancelou toda a parceria com o Hospital Saunders. Eles vão enfrentar uma baita crítica por enganar os pacientes. Acha que Owen não ia ficar nervoso? Fora isso, os negócios do hospital já tão caindo há anos. Some a isso os escândalos médicos seguidos… A confiança do público no Hospital Saunders está praticamente no chão.”
A empregada suspirou. “Na época que o senhor Will estava vivo, o Hospital Saunders tinha ótimos médicos e preços justos. Quem diria que, em poucos anos, ia ser ultrapassado pelo hospital Silverburgh?”
A voz de Yunice estava calma. “E não é só isso. Ouvi dizer que tão planejando construir um hospital novo na parte norte da cidade, com instalações novinhas e equipamentos de ponta. Quando isso acontecer, o Hospital Saunders nem vai ter onde se segurar.”
Gill finalmente entendeu. “Não é à toa que Owen está pirando, tentando forçar Elsie a casar com um ricaço o quanto antes.”
Mas, olhando a expressão calma e controlada da jovem, não pôde evitar ficar surpresa.
O Hospital Saunders era o trabalho da vida do senhor Will. Será que ela estava mesmo disposta a ver tudo desmoronar assim?
A garota sorriu de leve. “Você faz o que pode com o que tem. Desde que eu consiga me proteger, está de bom tamanho.”
Gill ficou surpresa, mas aos poucos percebeu a verdade nessas palavras. Não dava para engolir um pedaço grande de carne de uma vez. Estava sendo impaciente demais. Sempre achou que a garota era muito jovem, inexperiente. Até se preocupava que não conseguisse superar Owen ou Elsie. Mas vendo como ela estava lúcida agora, finalmente ficou tranquila.
Mais tarde, naquele mesmo dia, Joe voltou para pegar a versão melhorada dos comprimidos de Alfasirox que Yunice tinha refinado. Ele disse que os chefes aprovaram o teste clínico para esse novo lote de remédio.
Quando Gill voltou depois de dar uma volta, Joe já havia ido embora.
A empregada se aproximou sorrateira, como se fosse contar uma fofoca suculenta. “Sra. Saunders, adivinha quem eu vi?”
A jovem apoiou o queixo numa mão, girando a caneta distraidamente.
A mulher sussurrou, misteriosa: “Vi Elsie e Paul, grudados que nem chiclete, praticamente se devorando. Em plena luz do dia, acredita? Sem vergonha.”
Mal terminou de falar, tapou a boca, lançando um olhar para Yunice.
Mas a jovem só preencheu calmamente uma resposta no papel e disse, arrastando a voz: “Como se isso fosse novidade para mim. Não vale a pena.”
Afinal, mesmo que ela e Paul já tivessem sido namorados, se ainda não tivesse superado, só estaria se humilhando.
Mas mesmo que não ligasse, Gill estava fervendo. “Paul ainda está numa cadeira de rodas! E Elsie… além de ser boa em seduzir homens, o que mais ela sabe fazer?”
No meio da reclamação, os olhos dela se arregalaram, e os pensamentos foram ficando menos inocentes.
Yunice ergueu o olhar e cruzou com o dela, que dizia tudo. As duas entenderam na hora.


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