Ícaro
A pasta sobre sua mesa continha documentos importantes sobre o novo projeto da Acrópole. Estava assinando as páginas que já tinha revisado, quando seu assistente bateu na porta e entrou.
- Estava me perguntando onde você se meteu a manhã toda.
- Você estava precisando de mim? – Ticiano tirou o celular do bolso, checando sua tela. – Não tem nenhuma chamada perdida.
- É porque eu não te liguei. – respomdeu, sem levantar os olhos dos papeis que assinava. – Sente-se.
- O complexo da Casa Verano foi concluído com sucesso. A inauguração contarará com um evento grande, eles contam com a sua presença e a do senhor Alberto.
Na hora do almoço, sempre repassavam os compromissos para os próximos dias. Era uma maneira eficiente de se preparar para suas reuniões.
- A viagem para Dallas está marcada para o dia dezenove, daqui a oito dias, a transação com a Hilse esta na faze final, a sua presença fechará o negócio.
- Meu irmão confirmou presença?
- O senhor Alberto não irá, disse que não pode se ausentar da cidade no momento.
- O que caralhos o impede de viajar? – respondeu frustrado.
Essa não era a primeira viagem de negócios que Alberto declinava nos últimos meses. Já passou da hora de descobrir em que merda seu irmão estava pensando!
- Vou resolver isso hoje. – resmungou, mais para si mesmo.
- Gostaria de enviar alguma mensagem ao senhor Alberto?
- Não. Falo ocom ele mais tarde, quando for para casa.
- Certo. Sobre o projeto Bahamas...
- Ticiano, quanto tempo mais terei que esperar para que cumpra com o que eu te ordenei?
Indagou, fuzilando o homem de aspecto serio e polido a sua frente.
Seus óculos de aros finos sempre no lugar, os cabelos penteados milimetricamente para tras. Quem olhasse para esse cara, nunca imaginaria que ele foi um tipo de delinquente juvenil.
Ele foi um pé no saco quando se conheceram. Mas hoje eram uma boa parceiria. O garoto cresceu, e se tornou um homem confiável e disciplinado.
Devido a sua história, ele não se sentia confortável em misturar a postura profissional, com a camaradagem que tinham fora da empresa. Mas, mesmo assim, Ícaro nunca aceitou que ele o chamasse de senhor.
- Ah sim, isso. Sobre a senhorita Bastos, nos estamos tentando uma nova abordagem. A primeira foi vetada porque as agencias de emprego direcionam o perfil dela para qualquer coisa, menos a área em que está se formando.
- Esses malditos!
- Nunca te vi tão interessado em outra pessoa assim, Ícaro.
- Não se meta com as minhas coisas. Só faça com que ela trabalhe aqui.
Antes de abandona-lo na manha seguinte, ela deixou o objeto sobre a cama, como uma espécie de despedida.
Ícaro enfiou as mãos nos cabelos, inclinando as costas sobre o encosto da cadeira confortável.
A Amélia de cinco anos atrás era mais magra e frágil. Havia marcas de queimadura em sua pele, ele se lembrava bem. A mulher que reencontrou, era gordinha, deliciosamente cheia de curvas e reentrâncias desconhecidas; seus olhos perderam o brilho inocente e suplicante, no seu lugar havia uma cama intença de força e determinação que crepitava constantemente.
O que aconteceu para que ela mudasse tanto? Por que ela estava naquela festa?
A lacuna nas informações de seu passado eram muito desconcertantes.
- Quem é você Amélia Bastos...
Ícaro se serviu de uma dose de bebida cheia de gelo. Se aproximando da parede de vidro de seu escritório. O céu estava carregado de nuvens, com certeza vai chover.
Seus lábios se curvaram com a lembrança de Amélia no meio da chuva lutando para fazer o fusquinha vermelho funcionar.
Aquela mulher maluca.
Ontem estava caminhando na madrugada para voltar para casa. Impressionante como ela não tinha noção do perigo.
Esperou que ela saísse da lanchonete, somente para ve-la. Mas isso não foi o suficiente. Precisava ter Amélia perto de si, tocar seu corpo, seus lábios.
Nada ficaria entre ele e aquela mulher.

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