Vitório
O silêncio o recebeu na ampla propriedade. Estranhamente, Tobias não estava na garagem, ou nas dependências dos funcionários.
Vitório olhou para a construção moderna e elegante, as luzes da sala e do hall estavam apagadas, e no segundo andar, somente um brilho tênue iluminava as janelas.
Um pensamento apavorante o fez disparar para dentro.
A porta lateral estava aberta, como sempre. Mas não havia som nenhum, nenhum movimento, e tudo estava envolto na luz tênue de....
Velas?
- Que porra está acontecendo aqui? – perguntou em voz alta.
Não havia sinal de nenhuma das empregadas, e Ludmilla não estava em parte alguma. Onde estavam todos?!
O pensamento pavoroso se aprofundou em sua mente, ele correu para o corredor, em busca de Lucila e Olavo.
E se aquela psicopata estivesse ali, dentro da sua casa, com a vida de sua família em suas mãos?! Não, não podia ser! Isso não poderia estar acontecendo! Com desespero ele verificou as câmeras, não havia nada fora do padrão, começou a subir as escadas, ladeadas de velas aromáticas, e praguejou quando pisou em algo que quase o derrubou.
- Mais que caralho... – o celular caiu de suas mãos, quando ele segurou no corrimão para se equilibrar.
Ao recuperar o aparelho, Vitório viu o que quase o derrubou. Uma mordaça. E não era qualquer mordaça, essa era a mordaça de arco de metal, um dos objetos que compunham o seu arsenal pessoal na Masmorra Diè. Ele a pegou na mão, a inscrição M. V, gravada na parte interna da prata fria não deixava dúvidas.
Vitório sentiu o peso da mordaça nas mãos como se segurasse o próprio passado materializado em prata fria e couro tratado. O objeto brilhava sob a luz trêmula das velas, refletindo fragmentos de um homem que ele pensava ter enterrado há muito tempo, o Mestre, o dominador, o ser que buscava controle e prazer em corpos submissos e noites que nunca amanheciam.
O nome gravado em seu interior, M.V., parecia queimar as pontas de seus dedos, lembrando-o do que foi.
Não havia sinal de invasão, nenhuma desordem.
Vitório nunca quis arrastá-la para isso. Lucila era luz, era calor, era a redenção que o arrancou daquela escuridão. Ele jamais a desejou como submissa, porque ela já o completava de forma que nenhuma mulher ajoelhada diante dele conseguiu.
Mas agora, segurando a mordaça, ele temia o que ela sentia. Seria repulsa, decepção, talvez horror?
Nenhuma mulher quer saber que o homem que ama já teve escravas, que foi senhor de corpos e vontades, que buscou o prazer até o limite do humano sem nunca encontrá-lo.
E se agora ela o olhasse com esses olhos que tanto o amavam e visse apenas o monstro sombrio que ele foi?
A ideia o incomodou sobremaneira.
O som suave das velas queimando era o único ruído no silêncio que se estendia entre o passado e o presente, um silêncio tão cortante quanto o julgamento da mulher que ele temia ter perdido para seu passado obscuro e sombrio.
Apertando a mordaça em suas mãos, ele começou a subir vagarosamente os degraus. Não sabia o que o esperava, mas de uma coisa tinha certeza, a princesa doce tímida que ele conhecia desde a infância, não estaria lá em cima esperando por ele.

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