Ponto de Vista de Mia
O vapor do café sobe em espirais como fumaça preguiçosa de um cigarro esquecido. Bate na luz da janela da cozinha, ficando dourado por um instante antes de desaparecer. Estou sentada no balcão, os dedos envolvendo a caneca, sentindo o calor se infiltrar nas palmas.
Sophie e Scarlett estão à minha frente, as vozes quicando como bolinhas de pingue-pongue num quarto pequeno. Falam rápido, se sobrepondo, do jeito que sempre fazem quando somos só nós.
— …E juro, aquele vestido que ela usou na gala? Meu bem, estava gritando "desesperada" em cada costura. Tipo, quem combina paetê com veludo em novembro? Não estamos em 1995. — A risada de Sophie é afiada, como gelo rachando.
Ela está inclinada para frente, cotovelos no balcão, as unhas vermelhas fazendo um ritmo na própria caneca. O cabelo está preso num coque bagunçado, mechas escapando como se não pudessem ser contidas, igualzinho a ela.
Scarlett resmunga, os olhos virando para o teto. — Por favor. Isso não era desesperada — era delirante. Quer dizer, vamos lá, o ex dela estava bem ali com a nova conquista. Ela podia ter posto uma placa escrito "Me escolha! Fica comigo!"
A voz de Scarlett afunda no final, zombeteira, os lábios se curvando naquele sorriso que ela tem quando está fofocando. Ela está com as pernas cruzadas embaixo do banquinho, um pé balançando como se tivesse energia sobrando.
Ouço as duas, mas minha mente está em outro lugar, reproduzindo ontem como um loop que não consigo parar.
— Mia. Mia. MIA.
Pisquejo.
O rosto de Sophie está a quinze centímetros do meu. Os olhos perfeitamente delineados, estreitados. Os lábios vermelhos pressionados numa linha fina de irritação.
— O quê?
— O quê? — Sophie repete. Ela se recosta. Cruza os braços. A seda da blusa farfalha com o movimento. — O quê. Ela fala o quê.
Pisquejo, a garagem desfazendo, a cozinha voltando a se firmar. O vapor do café ainda subindo. Scarlett também está me olhando, a cabeça inclinada, uma sobrancelha levantada como se estivesse esperando uma explicação.
— Desculpa — digo, a voz saindo mais suave do que quis. Pouso a caneca, a cerâmica tilintando contra o balcão. — Eu estava… distraída. O que vocês estavam dizendo?
Scarlett se recosta, cruzando os braços sobre o peito. A regata sobe um pouco, mostrando um fio de pele. — Distraída? Minha, você estava encarando esse café como se ele tivesse as respostas para os mistérios da vida. Faz dez minutos que a gente está fofocando e você está aqui no mundo da lua.
— É — Sophie emenda, os olhos se estreitando só um pouco, brincalhona mas pontuda. — Se eu não soubesse melhor, diria que você estava sonhando acordada com um certo ex-marido. Conta tudo, Mia. O que te deixou assim tão aérea?
— Não é nada. Sério. Só cansada de ontem. As crianças ficaram agitadas depois do tour da casa.
Sophie concorda, o coque balançando. — Totalmente. Estou com a Scarlett nisso. Como a gente diz na França, "Un voleur est un voleur" — ladrão é ladrão. Sem misericórdia para cobras como ela.
Pouso a caneca de novo, o calor saindo das palmas. — Tá, mas… comemorar a morte de alguém? Parece estranho.
Scarlett revira os olhos, mas é carinhoso, a mão alcançando para dar um tapinha rápido na minha. — Mia, meu bem, você é boa demais. É por isso que a gente te ama. Mas eu? Sou uma bruxa e estou assumindo isso. Se alguém mexe com as minhas amigas, não perco o sono quando elas recebem o que merecem. Taylor? Ela ganhou esse fim. Ponto final.
— É — Sophie acrescenta, as unhas batendo mais rápido agora. — Também não vou derramar lágrimas. A vida é curta demais para simpatia falsa. Ela te machucou muito, Mia. Perdeu seus bebês por causa dela. Se isso não é justiça, o que é?
Me recosto no banquinho, a madeira rangendo embaixo de mim. As palavras delas ficam suspensas ali, pesadas mas de algum jeito leves também, como se estivessem tirando algo do meu peito que eu não sabia que estava lá. — Tá bom, tá bom. Entendi. Ainda bem, então.
Scarlett sorri, triunfante, os dentes brancos aparecendo. — Essa é a minha menina. Agora, falando em seguir em frente — chega de papo pesado. Preciso me resetar. Estou pensando em ir naquele spa novo no centro. Fazer uma massagem, talvez flertar com algum massagista gato. Os novos. Sabe, regular os hormônios um pouco. — Ela pisca, a sobrancelha arqueando devagar.
Sophie anima, os olhos faiscando. — Ai, sim. Pode me incluir. Podia usar uma dose de beleza. Fui engolida por emails de trabalho a semana toda. Um gato com as mãos fortes? Estou dentro.
Scarlett ri, baixo e gutural. — Minha, mesma coisa. Minhas pernas? Estão basicamente cobertas de teias de aranha. Faz uma eternidade que não rola nada.
Não consigo evitar — arrego os olhos. — Uma eternidade? Scarlett, três semanas atrás você estava me contando sobre aquela coisa no carro com o Morton. No estacionamento? Não lembra?

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Esposa Indesejada e Seus Gêmeos Secretos
Excelente livro, uma delicia de ler e o mlhor o livro esta completo...
Não quero acreditar que Mia vai voltar com Kyle! E Thomas? Thomas e Sophie? E a relação tranquila que Mia desenvolveu com Thomas quando Kyle simplesmente sumiu?...
Desculpe, mas cadê os capítulos do 266 até 279? Simplesmente não existem?...
Ela tem e que sofre mas nunca vi mulher mas burra...