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A Esposa Desprezada: O CEO Vai Implorar Por Amor romance Capítulo 101

Marina estava de joelhos no tapete da entrada quando a sorte - ou o azar - resolveu visitá-la.

Não que ela estivesse procurando por problemas. Na verdade, ela estava procurando pelo sapato esquerdo de Clara.

A irmã mais velha tinha o hábito irritante de deixar os sapatos espalhados pela casa como se fosse uma criatura em migração. Sandálias na sala, rasteiras no corredor, scarpins na cozinha - como se andar até o armário exigisse um esforço sobre-humano.

Marina, por sua vez, tinha o hábito igualmente irritante de esconder os ditos sapatos.

Era uma guerra silenciosa que durava anos. Clara escondia o carregador do celular dela. Marina escondia os sapatos. Clara trocava o açúcar pelo sal. Marina colocava glitter no xampu da irmã.

Nada muito grave. Nada que o amor fraternal não pudesse justificar.

O problema é que, ao se ajoelhar para alcançar a caixa de sapatos que ela planejava usar como esconderijo, Marina esbarrou no monte de correspondências que o carteiro enfiara pela fresta da porta.

Cartas. Contas. Propagandas. E um envelope amarelo.

O envelope amarelo chamou sua atenção primeiro pelo tamanho - era maior que os outros, do tipo que se usa para documentos importantes. Depois pelo remetente: Banco.

Marina franziu o cenho.

Cartas do banco não eram boas notícias. Isso ela aprendera desde pequena, observando os pais contarem moedas na mesa da cozinha, sempre preocupados, sempre no limite.

Ela abriu o envelope sem pensar duas vezes.

Extrato de Débito

Pendência: R$ 50.000,00 (cinquenta mil reais)

Garantia: Imóvel próprio (Apartamento 42, Rua das Acácias, 123)

Vencimento: 30 dias

O mundo parou.

Marina leu uma vez. Leu duas. Leu três vezes, como se a repetição pudesse fazer os números mudarem.

Cinquenta mil reais.

O apartamento. O apartamento dos seus pais. O lar onde ela crescera, onde o cheiro de terra e flores exalava da pequena estufa no quintal, onde o avô lhe ensinara a diferença entre lavanda e alfazema.

Hipotecado.

A palavra ecoou em sua mente como um veredito.

- O que você está faz aí? - a voz de Clara cortou o silêncio, surgindo na sala com uma xícara de café na mão. - Já escondeu meu sapato?

Marina não respondeu. A carta ainda tremia em suas mãos.

- Marina? - Clara se aproximou, o tom de brincadeira sumindo do rosto. - O que foi? Você está pálida.

Ela entregou a carta sem dizer uma palavra.

Clara leu. E o silêncio que se seguiu foi pior do que qualquer grito.

- Cinquenta mil - sussurrou Clara, sentando-se no braço do sofá. - E o apartamento...

- Eles hipotecaram o apartamento - Marina completou, a voz estranhamente calma. Calma demais. - Sem contar nada. Para a gente.

- Por que você abriu a correspondência dos outros?

- Clara!

- Eu sei, eu sei. - Clara passou a mão pelo rosto, exausta. - Desculpa. É que... eu sabia.

Marina virou-se para ela.

- O quê?

- Das dívidas. Eu sabia. - Clara evitou o olhar da irmã. - Não dos cinquenta mil. Nem do apartamento. Mas... eu sabia que eles estavam passando por dificuldades. O Sr. Henrique me adiantou dinheiro. Vinte mil.

- Sr. Henrique? Seu chefe?

- Ele é um anjo, Marina. Quando eu estava chorando no escritório, ele me viu, me ouviu... e simplesmente mandou o dinheiro na mesma hora.

Marina sentiu o estômago embrulhar.

- E você não me contou?

- O que você faria? - Clara finalmente a encarou. - Você está na faculdade. Tem seus planos. Seus sonhos de ficar no quintal extraindo essências como o vovô...

- Isso não é só um sonho! É o nosso legado!

- É um hobby! - Clara rebateu, a voz mais alta. - Não paga as contas, Marina. Não paga o leite, não paga a luz, não paga o plano de saúde do papai.

Marina sentiu as palavras como golpes.

- Você não precisa ser cruel.

- Não estou sendo cruel. Estou sendo realista. - Clara se levantou, a carta ainda na mão. - Alguém precisa ser.

- O quê?

- Clara vai me levar amanhã.

- Nossa, Marina deixou de ser contra as grandes corporações? - A mãe arqueou as sobrancelhas, surpresa.

- Já que não podemos vencê-los - Marina respondeu, decidida - vou me aproveitar deles. O negócio da família... eu sei que não vai bem.

O silêncio foi a confirmação.

- Filha... - a mãe começou, os olhos marejados.

Seu Antônio largou o garfo de vez.

- Não era para ser assim. Você deveria estar estudando, seguindo seus sonhos...

- Meu sonho não vai desaparecer porque vou trabalhar naquele lugar. - Ela olhou para Clara. - E quem sabe? A Essência é a maior empresa de cosméticos do país. Posso aprender coisas novas. Coisas que me ajudem no futuro.

Clara a observou por um longo segundo.

- Você vai me obedecer? - perguntou a irmã mais velha. - Não vai causar confusão?

- Vou.

- Não vai discutir com os superiores?

- Não vou.

- Não vai...

- CLARA!

- Estou só verificando!

O pai deixou escapar um riso baixo. A mãe enxugou os olhos com o avental.

- Está bem - cedeu Clara, com um suspiro teatral. - Mas se você prejudicar minha imagem, eu faço eles te demitirem.

Marina sorriu.

- Falando assim parece que você é uma grande executiva e não secretária.

Clara levantou da mesa pronta para dar um cascudo na irmã mais nova, e ambas começaram a correr em volta da mesa.

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