POV OLÍVIA
- Ninguém neste mundo é meu amigo... Tudo que o senhor faz é para o meu bem... Preciso me sobressair nesta sociedade cada vez mais capitalista, onde quem manda é o dinheiro e não as relações. Eu sou o futuro da família Clifford. E não posso confiar em ninguém, nem mesmo nos meus irmãos. Sentimentos são as piores fraquezas de um homem!
Durante aqueles três dias que Gabe esteve no hospital, já era a segunda vez que falava aquela mesma frase, como se tivesse decorado com a alma.
Senti a lágrima morna escorrer pela minha bochecha e cair no dedo dele, exatamente na letra “O”, de “Olívia”, que ele havia tatuado no dedo anelar.
- Volta para mim... – Implorei – Eu achei que conseguiria ser forte, mas descobri que não consigo viver sem você, Gabe!
- Senhora Clifford, acabou o horário de visita. – A enfermeira disse, com o olhar pesaroso.
- Ele falou – expliquei – Ele falou uma frase inteira, com as palavras claras...
- Já observamos ele dizer algumas coisas, mas... É de forma involuntária, entende?
- Mas se ele lembra das palavras... E de coisas que aconteceram... Não haverá sequelas, não é mesmo? – Tentei, esperançosa.
- Isto só o médico poderá lhe dizer melhor. Agora precisa ir... O senhor Clifford precisa descansar.
- Mas ele não está cansado... Está deitado há três dias... Eu tenho certeza que Gabe gostaria que eu estivesse aqui... Ao lado dele... – Falei sem me mover da beira da cama, observando seu rosto com semblante descansado, como se estivesse dormindo.
- Mais cinco minutos... É o máximo que posso deixá-la ficar... – ela olhou hesitante pelo vidro, observando as demais enfermeiras e saindo.
Voltei meus olhos para Gabe:
- Só tenho mais cinco minutos com você... – alisei seu rosto demoradamente – E... – não me contive, deixando as lágrimas caírem – Eu quero mais, muito mais... Pode voltar? Pode ficar comigo por toda a vida? Lembra que eu disse que eu morreria primeiro? Eu tenho diabetes tipo 1... E vinte anos menos de vida que uma pessoa normal. Me preparei para ir antes de você... O imaginei chorando no meu túmulo... Mas não o contrário. Não entende que não tenho psicológico para isto? Você é o forte nesta história... Você é Gabe Clifford, o CEO sem coração... – Sorri.
Então, como num milagre, suas pálpebras se mexeram, como se as íris estivessem tomando vida de novo. E ele abriu os olhos levemente amendoados... O azul intenso, quase gelo, penetrando minha alma. As sobrancelhas espessas e escuras, que contrastavam com o tom claro dos cabelos, estavam ligeiramente levantadas. Ele entreabriu os lábios finos, tão bem desenhados que pareciam uma pintura... Uma pintura sem cor, já que estavam pálidos. Esboçou um leve sorriso, a canto direito do lábio superior subindo mais que o esquerdo, algo que eu nunca tinha me dado em conta que era exatamente aquilo que o deixava ainda mais sexy... E totalmente malicioso. Ele raramente pegava sol... Ainda assim tinha a pele dourada de forma natural. Gabe Clifford, meu marido, era um convite ao inferno! E sua reação não mexeu somente com meu coração... Mas também com minha alma e meu corpo, que verteu de desejo e amor.
- Gabe! – o abracei com força, não me preocupando com nada a não ser o fato de ele estar de volta – Senti tanto medo de perdê-lo! – Confessei.
Ele não disse nada. Tampouco tocou-me. Seguiu deitado como uma estátua e eu só me certifiquei que estava vivo porque seu coração batia debaixo do meu rosto que estava sobre seu peito.
Percebi sua respiração acelerar e levantei minha cabeça, limpando as lágrimas. Peguei sua mão e passei meu dedo sobre o dele, exatamente na tatuagem:
- Obrigada! – sorri – Quando você fez isto? Quando pretendia me contar?
Ele estreitou os olhos, parecendo confuso.
- Eu te amo, Gabe! Me desculpe por duvidar de você. Eu sei que não teve nada a ver com a expulsão da minha família da casa...
- Quem... É você? – Ele arqueou uma sobrancelha, confuso.
Senti meu coração acelerar ainda mais e um frio percorreu minha espinha antes de explicar:
- Sou... Olívia... Sua esposa. Você... Lembra de mim, não é mesmo?
- Olívia? – murmurou, parecendo não lembrar de nada.
- Chuchu... Isto lhe traz alguma lembrança?
- Eu... Não gosto de chuchu! – Falou de imediato.
Tive vontade de chorar ainda mais quando mencionei:
- Insípida, inodora... E insignificante... Eu... Era isto para você.
- Então por que casamos?
- Porque... Você queria se vingar do meu pai. – Deveríamos ter aquela conversa com ele não entendendo nada do que acontecia? Mas se não fosse daquela forma, como Gabe lembraria de mim?

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